ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de junho de 2002
Rubens Pileggi Sá<br>Especial para a Folha 2 
Caro amigo:
Depois de nossa conversa pelo telefone, reitero aqui que, hoje, são os artistas a promoverem a crítica mais contundente ao sistema, porque o conceito de cultura está muito mais próximo do pensamento que a arte pode desenvolver do que da própria política, ou dos próprios políticos, que dependem tanto da opinião pública, ibope e mídia para conquistarem seus cargos institucionais. Suas idéias precisam soar como verdades absolutas e palatáveis e eles acreditam nisso - ou querem fazer crer - como possível salvação, tendo em foco as questões sociais e econômicas, enquanto a arte desenvolve e problematiza questões no campo comportamental, também. Além de não vender verdades, o que a torna mais atenta em relação ao que se passa no mundo.
Temos cada vez menos heróis e acho ótimo que essa idéia de gênio se acabe logo. Temos é que lidar com as coisas simples que acontecem na vida. Chega de viadutos/pontes/grandes construções faraônicas. Chega de criadores sensacionais com sua capacidade de inventar frases bonitas, palavras que ninguém entende, coisas malucas que afastam o desejo das pessoas de se aproximarem da arte, porque tem alguém super-gênio capaz de fazer melhor e por nós, morto em museu. Aqui, ó! Na medida em que delegamos a responsabilidade da nossa vida para os outros, perdemos nosso direito a ela.
Tive uma aluna de arte que insistia em imitar o Manabu Mabe. Dizia-se moderna porque despejava tinta sobre a tela igual ao Jackson Pollock. Um dia ela me mostrou, muito envergonhada, umas coisas dela, sem-importância. Não eram pinturas, nem esculturas ou desenhos. Embora tivessem ali pintura desenho escultura. E palavras, números que se repetiam, uma radiografia de sua vida sem vida, sem emoção, muito tocante até por isso. Mas ela não achava que aquilo era arte, porque era tão parte dela, que ela simplesmente não valorizava, como a vida que levava, mas que, estranhamente, inventariava com muita precisão uma situação vivida por muita gente. É preciso olho para reconhecer os acontecimentos. E quase nunca eles vêm de forma espetacular, sejam políticos ou poéticos, o que, no caso, fazem parte do mesmo fenômeno.
Acabou de acabar um evento aqui no Paraná, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado, em uma cidade do interior chamada Faxinal do Céu. Convidaram 100 artistas do Brasil todo para se reunirem durante duas semanas lá. 30 deles como reserva de mercado do Paraná. Ao custo de 600 mil reais. Uma baba - considerando os gastos investidos até agora na implementação de política cultural para o Estado - para um governo em final de mandato! Pois bem. Um artista de Curitiba, que foi convidado, mas que desistiu de ir ao evento, Newton Goto, através de um happening e de um texto, fez uma crítica contundente, dizendo tratar-se de interesses de marketing político... Um outro detalhe pouco destacado - continua ele - é que o dinheiro público empregado no projeto originou-se dos contribuintes paranaenses, mas o retorno à comunidade é algo que não está claro. E além disso, o que se tem? Um evento só para artistas, com comida, casa e roupa lavada, algo sobre o qual vários dos próprios artistas estão chamando de colônia de férias e até de spa das artes. Ele arremata: Que facilidade em chamar renomados estrangeiros para inventar um projeto a toque de caixa e nem ao menos consultar previamente artistas locais para uma troca de idéias, ouvir um pouco sobre uma realidade que muito provavelmente os de fora desconhecem. Colonizadores e colonizados; às vezes sendo as mesmas pessoas. E qual é a posição dos artistas? Só aceitar o mel? Só lamber os beiços? É mole? Você acha que um político, interessado em manter sua imagem, faria uma coisa dessas? Faria nada! Os caras querem tudo hoje, menos o rótulo de radical! E a outra lá querendo ser o Jackson Pollock!
É isso. Se alguém tem que pensar sobre a poluição do meio ambiente, os vários níveis de exploração humana, o rompimento das fronteiras e a exclusão social, econômica e cultural, por que não nós, que podemos manter a independência e a reflexão intactas?
Só existe uma arte, a que sempre existiu: a que ousa. O mau artista imita, quer ser. O bom, enfrenta, encara. Concordo com aquele mexicano que você entrevistou: Que faz o poeta no mundo?: faz o mundo. Ah! Se quiser o texto inteiro do Goto, que está circulando na internet, eu mando. Um abraço.
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