ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de maio de 2002
Rubens Pileggi Sá Especial para a Folha2 
Convidado para ocupar a galeria de arte da Funarte, no Rio de Janeiro, no prédio histórico do Ministério da Educação e Cultura (projeto pioneiro da arquitetura moderna no país), durante 40 dias, de 7 de maio a 16 de junho, o artista Edson Barrus, criador do projeto cão mulato, em vez de chamar alguns artistas para colocarem obras no espaço delimitado da instituição, convocou as pessoas para participarem de uma quarentena artística, com a idéia de permanecerem o tempo máximo possível usando aquele espaço sem a preocupação de ocupá-lo com obras, ou autoria delas, mas com o intuito de intervir nas fronteiras do que pode ser considerado arte.
A experiência, inédita e rica em suas possibilidades, tem levado à galeria da Funarte desde artistas de Macapá que trouxeram do rio Amazonas, troncos de madeira de andiroba e assacu para serem triturados até o limite de resistência das motosserras até cascas e restos de comida que se transformam em arte (?) jogados ao chão daquele imponente edifício. Em um texto apaixonado, aqui editado, assim ele define até agora o evento, cujo nome dado é açúcar invertido:
Dar início a processos em vez de compor um evento. Desculpem o Transtorno, Estamos em Obras, trabalhando, trabalhando....Pare a motosserra, aconteceu um acidente! Volta a trabalhar, trabalhando para o trabalho. Problema burocrático, a instituição possui metas diferentes...volta a trabalhar até uma da manhã a motosserra trabalhando. Outro acidente. Até agora duas idas ao hospital. Uma chamada para porrada. Uma festa dançante na casa dos Amigos do Açúcar Invertido. Alojamento em casa, a Fundação Nacional de Arte é aqui, é na Poesia no ônibus, na visita guiada com cachorro na Casa França Brasil. Até dona Zezé da Lapa já participou. Um carimbo da funarte pode ser uma porta ou ponte para uma possível interação da Amazônia-Itália. Tem que cortar a madeira. Quebra uma, duas, três máquinas perdem a força. Devido ao seminário Lúcio Costa as máquinas tiveram que funcionar em ritmo intensivo, se desgastando. E o açúcar invertido interagiu utilizando o telão do seminário e armando redes nas colunas do prédio dele e fazendo a quarentena no sábado e no domingo, nada de pausa não estamos cansados.
Pó-de-assacu sobre os livros da Livraria Dazibao. Barulho nos refinados ouvidos dos arquitetos. Uma orquestra de barulhos. Ruídos. E a pergunta rola, o que é de quem, o que é arte e o que é lixo, e nos oferecem uma faxina para uma possível foto no jornal, deixe aí, alguém pode se interessar por isso. Tudo tem potência. Uma coisa se relacionando a outra poeticamente, associando, misturando-se. Escorrer pelos vazios. Os seguranças não nos asseguram nem nos seguram. É mudança de rotação, Verticalidade versus pulsação, versus horizontalidade, versus baixo materialismo, versus autogestão, versus hipertexto. Tudo link. Somos todos urucum e urucunenhum. E a instituição pede uma programação, não temos programa. O programa é não programar. O açúcar invertido é o mel que resulta do esforço dos artistas para fazer arte (...)
Artista em geral não se trata mais de integrar a arte na vida e sim dissolver o artista na sociedade é aquele artista em ato, que se produz no cotidiano, nas trocas com a vida, artista sem ateliê. Que já não tem mais nada com o artista gênio, dândi, louco ou qualquer estereótipo outro.
Esta arte é anárquica, não tem um programa, não é ideológica. É intelectual = política, pois se dirige essencialmente ao olho da instituição. Na rua essa arte pode causar estranhamento no transeunte, mas nunca possibilita uma posição de espectador. Uma arte que se produz pós-técnicas reprodutivas, a fotografia, o texto impresso e o vídeo são registros e o próprio trabalho. Não são concebidos mais no projeto do desenho. Uma imaRgem que dispersa o olho treinado, estruturado e legislador.
40 dias. Espaço de tempo durante o qual artistas permanecerão em processo, manifestando Sintomas de Arte Contemporânea. Não se trata de fundação e/ou de renovação e ampliação de áreas para a arte, visando à desinstitucionalização através da proliferação de instituições mutantes. Açúcar Invertido é um evento que nasce da vontade de produzir um saber sobre Arte Contemporânea, no momento em que não estão ainda preenchidas as condições para um consenso sobre esse saber.


