ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de abril de 2002
Rubens Pileggi Especial para a Folha 2 
Se o termo arte pela arte - tão caro aos modernistas do final do século retrasado e que teve seu apogeu por volta dos 1940/50 - já não faz mais sentido enquanto pensamento contemporâneo porque dá as costas à realidade dos fatos, seria de se perguntar até que ponto a arte dita pós-moderna pode ser ainda chamada de arte em meio à funcionalização que a cada dia mais se faz dela.
Se um evento tão importante quanto a 25ª Bienal de São Paulo que tem como tema as iconografias metropolitanas parece menos viçoso e instigante do que o figurante arte-cidade- um evento paralelo - que vem ocupando parte da zona leste da cidade de São Paulo com intervenções públicas, não será porque este modelo de arte de museu parece ter chegado a um beco sem saída, principalmente quando está voltado para refletir a própria cidade? E mesmo ele - o museu enquanto equipamento urbano - sendo parte da cidade, não é também cidade?
Mesmo em trabalhos que discutem especificamente a arquitetura do prédio da Bienal, como no caso do trabalho da artista Carmela Gross, que coloca um imenso luminoso na fachada lateral do lado de fora do edifício, com a palavra HOTEL - confundindo e afirmando a realidade do local - não seria isso também parte do tecido urbano? E do contrário, equipar a cidade com obras de arte, intervenções, esta não estaria se museificando?
Definições muito curatoriais (quer dizer, dos que sagram o que é do que não é arte) tendem a enxergar o trabalho do artista como um campo fértil para reconhecer e justificar seus próprios pontos de vista - principalmente nestes casos de temáticas urbanas - vinculando-os assim às suas próprias estratégias anteriormente planejadas para a constituição de eventos, mas que em última instância, acabam deixando a responsabilidade das respostas nas mãos dos trabalhos que os artistas produzem. Eventos audaciosos e milionários produzidos com o patrocínio do mecenato empresarial - cujas ações pernósticas ampliam a exclusão social, se aproveitando do esgarçamento da malha urbana - que exaltam as ações artísticas intervindo na transformação da realidade.
Se a cidade e a arte são uma só coisa dentro do contexto da cultura, já que tudo se transforma em museu, então, como uma arte feita para um contexto poderá ser compreendida em outro? E se a cidade devolve suas indagações a si mesma, como poderia ser banida a velha bandeira modernista da arte pela arte? Onde nada é artístico tudo é passível de sê-lo - um hidrante, um assalto, um assassinato - e antes que se acuse os artistas de qualquer crime de responsabilidade, devemos, pelo menos, garantir nosso sagrado direito da dúvida, principalmente quando coisas aparentemente tão contrárias acabam se tornando tão semelhantes.
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