ALFABETO VISUAL
A oficina de artes plásticas Caminhando e fazendo arte ambiental, ministrada pelo artista Newton Goto dentro do 10º Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná, em Antonina, realizado de 8 a 15 de julho deste ano , conseguiu elaborar um conjunto de cinco trabalhos dos quais três deles formaram um conjunto conceitual intitulado Fronteiras. Sua temática trata de questões que intermediam o olhar com a consciência, incluindo aí tanto o campo estético quanto o político.
Desconstruir os códigos de representação e reconstruí-los enquanto ações dentro de contextos específicos em relação direta com os lugares e suas ocupações era a meta a ser perseguida pelo processo. Para isto, era necessário estabelecer pontes de referências dentro da história da arte ligadas à land art, ao site specific, ao corpo sensorial e também aos artistas que pensam a obra como fonte de imanência. Alem disto, todo o trabalho foi desenvolvido e executado em grupo, sempre aberto a novas incorporações e interpretações.
Partindo de uma caminhada pela cidade, foram estabelecidos três marcos para receberem as obras. O primeiro foi a ruína de um antigo armazém onde antes era o porto de Antonina. O outro seria no caminho do pier, de onde se avistava uma área devastada de floresta em meio à Serra do Mar. E o terceiro foi no limite geográfico entre a cidade, o mangue e a mata, em uma pedreira onde a mão do homem e a força da natureza disputam ideais contrários de sobrevivência.
A ruína é um elemento plástico muito presente na paisagem. Fala de processos econômicos que a cidade passou, tem uma memória em sua arquitetura sem funcionalidade que a cidade prefere esquecer pois representa um símbolo do que já não é mais. Suas aberturas enquadram a paisagem como se fossem quadros de uma exposição ao ar livre. Ali foi realizado um trabalho denominado Véu. Uma rede de pescador foi estendida em toda sua extensão sobre os cabos de aço que sustentam as paredes nuas, formando um desenho de ondas entre um espaço e outro. A idéia era tornar essa rede uma teia para filtrar sonhos maus como fazem algumas tribos indígenas, mas seu conceito era o de mostrar que a separação entre o espaço interno e o externo é apenas uma convenção. Além do mais, a rede é o símbolo da cultura caiçara, que possui uma presença muito destacada na região.
O segundo trabalho, não concluído, tinha o nome de Entre. Seria uma peça em que algumas molduras recortadas eram colocadas entre duas varas de bambu ligadas a uma corda, para que se pudesse olhar o outro lado do da baía sem nenhuma intermediação entre o olho e a paisagem.
O último trabalho desta série recebeu o nome de Pele e foi realizado com a projeção de slides sobre o corpo nu de pedras cortadas e dos corpos nus de alguns dos participantes da oficina. Ali, o limite entre pintura, escultura, instalação e performance estava a serviço de projetar sobre os volumes daquelas matérias uma visão poética e ritualística que juntava eras geológicas, tempos imemoriais, permanências e durezas a inscrições rupestres, a hieróglifos evanescentes, surgindo uma ligação entre a arte tribal e a contemporânea.
O acaso, a imprecisão e o risco foram incorporados no processo de criação dessas obras, cuja ferramenta mais adequada à sua compreensão era e é a lucidez e um olhar despido de preconceitos. Sempre entendendo que a história da arte se faz por resgates, incorporações e ocupações de lugares que sempre estão reconstruindo nossas idéias sobre o espaço e seu uso.
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