ALFABETO VISUAL- Mundo, vasto mundo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de fevereiro de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
''Arte, artista, isso é muito romântico para o nosso mundo individualista'', como vovó já dizia. Mas se está tudo tão ruim assim, vamos construir um outro mundo em que se reparem as injustiças. Chamem-se os artistas!
Quem conheceu o mestre, o compositor o professor Koellreutter. Quem o ouviu dizer que é nos paradoxos que se encontram as melhores alternativas, que o choque é gerador de cultura. Que as coisas não são boas nem más em si, mas que tudo é relativo, não pode deixar de sentir nisso tudo uma certa ironia pelo que vem ele passando nesse final de vida.
Aos 88 anos de idade, o mestre já viveu de tudo. Foi perseguido pela própria família que era simpatizante do regime nazista, chegou ao Brasil em 1937, em plena ditadura Vargas, foi preso por engano como espião alemão. Morou em favela, foi intoxicado por chumbo em uma fábrica, lavou janelas e sofreu todo tipo de perseguição nacionalista pelos seus pensamentos avançados em música. Trazendo para cá o atonalismo e o dodecafonismo, além de partituras de músicas medievais que não se encontrava por aqui. Foi um precursor da Música Nova. Fundou grupos de estudo sobre música. Viajou o país difundindo seus conhecimentos. Enfim, foi um pioneiro.
Trabalhou como diretor do Instituto Goethe no Brasil, na Índia e no Japão. Deu aulas na Universidade livre de Música no começo dos anos 60 na Bahia -experiência até hoje tida como a das mais libertárias no setor. Foi apontado como um ''inspirador da bossa-nova'' pelo próprio Tom Jobim, que estudou com ele na adolescência. Além de Tom Zé, que diz ser o mestre alguém que abre a cabeça das pessoas para experiências não só da música, como da vida. E mais, formou vários maestros: Karabitcheviski, Cláudio Santoro, Guerra Peixe e mais um batalhão de maestros e mestres espalhados pelo Brasil e pelo mundo afora.
Por sua casa, em São Paulo, passavam pessoas como o performer Sterlac - conhecido por trabalhar interfaces entre o corpo humano e a tecnologia - e muitas outras pessoas envolvidas com arte, filosofia e cultura, de maneira geral. Sem dúvidas, Koellreutter foi alguém que ajudou a ampliar os limites da arte e da música enquanto linguagem, criando inter-relações da música oriental e afro-brasileira com a música erudita de vanguarda. Ousado, sua partitura para Acronon - uma de suas peças musicais - foi criada sobre uma esfera de cristal transparente, de modo que toda leitura sobre ela sempre gera uma nova execução.
Pois bem, de uns dois anos para cá, desde a última vez que esteve em Londrina, a convite da professora Janete El Haouli, Koellreutter não passa bem. Na verdade vegeta em seu apartamento em São Paulo. Foi atacado pelo mal de Alzheimer, depois sofreu uma isquemia e ainda uma pneumonia. Coisas da vida!
Antes tão assediado por todos, imprensa, alunos, gente ávida pelos conhecimentos e sabedoria do mestre, agora ninguém mais procura por ele, afirma sua governanta, por telefone. Já não pode, no entanto, receber visitas. Disseram-me que esperam sua morte para prestar-lhe homenagens. Já não pode mais andar, falar, nem compreende nada à sua volta. Fica sentado o dia todo no sofá, onde lhe colocam as músicas que tanto gostava.
Esse não é o problema. Isso é humano. O problema é que, com esse currículo todo de prestação de serviços à arte e à cultura brasileira, cidadania roubada de sua pátria natal, etc., o mestre não possui nenhuma aposentadoria, nenhum outro meio de sobrevivência, como afirmou sua governanta, sendo que as despesas são custeadas pela esposa, que ainda trabalha.
''Mundo, vasto mundo...'', como dizia Drummond. Dizem que o bom cabrito não berra, não sendo cabritos, berremos por ele. Para quê a arte em um mundo de fascistas, egoístas, aproveitadores e de gente que morre sem que lhes faça justiça? Vamos reinventar tudo outra vez.


