Este era para ser um texto sobre arte, um texto que pudesse servir de referência a pessoas interessadas em compreender o quão importante é o trabalho daqueles que fazem da expressão de suas sensibilidades algo capaz de emocionar um público ávido por sensações. Era para ser uma leitura edificante que trouxesse um sentido que levasse o leitor a encontrar os sinais da arte onde quer que ela possa estar. Que falasse na beleza das cores da palheta de tal pintor, na liberdade de escolha do tema de outro, da graciosidade do cinzel de um escultor, da criatividade de outro, mais contemporâneo, com suas instalações ou fotografias, etc. E de como operam os novos circuitos artísticos. De como os críticos se engalfinham sobre se tal gesto, ou atitude pode ser considerada artística ou não.
Sinceramente, diante da realidade em que vivemos, tudo isto parece tão distante, que a única coisa a fazer, no momento é uma radiografia da realidade para pensar em que termos é possível atuar diante da situação em que vivemos.
E é urgente pensar também outras táticas e estratégias que nos favoreçam a inserção de práticas que nada possuem da convencionalidade a qual nos acostumamos rotulá-las.
A princípio duas formas básicas de pensamento sobre a arte devem ser evitadas. A primeira é a ingenuidade de querer se manter com o rótulo ARTE. ''Para um conceito inédito, novos instrumentos'', ensinamento que pode ser retirado das bases da física quântica. Pensar linearmente um momento que só pode ser vivido na indeterminação e no acaso é impedir novas formas de elaboração da linguagem e, consequentemente, do surgimento de uma resposta autêntica e original à realidade. Em segundo lugar, é preciso estar além da crítica, porque esta acaba se transformando em álibi para a nossa inação, pois estaremos sempre nos escondendo atrás de uma lógica disfarçada em assepsia, que nos impede de enfrentar, de fato, a sujeira, com medo de sujar nossas delicadas e sensíveis mãos de artistas. Transformar um lugar-comum em espaço potencialmente capaz de gerar transformações, sem cair na banalidade, é sempre o grande desafio. Nem que para isto for preciso usar a arte, ou qualquer outro rótulo convencionado, como justificativa de atitudes mais ousadas.
A pergunta é: como atuar diante do quadro de miséria e indiferença social que grassa em nosso país? Como romper com este modelo suicida e estabelecer novos pactos de solidariedade entre a humanidade e da humanidade com os seres vivos, tarefa não só necessária, como urgente? Com o ritmo de produção que hoje a matéria é processada, o planeta não suportará mais 30 anos vivo. Não só os miseráveis sucumbirão, mas toda a existência. Antes se achava que o mundo acabava para quem morria, hoje esta já é uma projeção real. Os que defendem o capital especulativo, ou mesmo o capital produtivo nos termos capitalistas, do lucro, da usura, do individualismo, parecem cegos diante desta percepção. Falta-lhes sensibilidade. Pode parecer ''derrotismo'' apontar essa situação de desespero, mas o fato é que 60 milhões de pessoas no Brasil vivem na linha da miséria, e embora grande parte de nossa terra não esteja ocupada, temos a maior concentração de terras nas mãos de latifundiários do mundo. Segundo o índice de desenvolvimento humano, O IDH, elaborado pela ONU, o país ocupa a vergonhosa posição de 84º lugar, atrás de muitos países africanos. Mas está em 12º lugar entre as pessoas com mais dinheiro acumulado no planeta.
Verdade é que não adiante se queixar da situação, até porque, desde o início do modernismo, a criação se faz sobre os escombros da sociedade industrial, utilitarista. Desde Baudelaire, pelo menos. Foi assim com a Europa, na Segunda Guerra. Tem sido assim, refazer-se das cinzas, como no mito de Fênix. E depois, voar.
Não é à toa o surgimento, cada vez mais, de ações de guerrilhas artísticas contra-culturais, inspiradas em movimentos como o Dadaísmo, misturando fronteiras, linguagens e possibilidades onde antes tudo se diferenciava por categorias e especializações. Como diz Allan Kaprow, no artigo ''a educação do a-artista'', escrito em 1969, publicado pela primeira vez no Brasil na revista Malasartes, em 1976: ''...contexto, ao invés de categoria. Fluxo em vez de obras de arte. As convenções da pintura, da música, da arquitetura, da dança, da poesia, do teatro, podem sobreviver, mas em uma posição marginal, acadêmica, como o estudo do latim, hoje''.
É sobre essas questões que o livro ''Assalto à Cultura'', de Stwart Home, publicado pela Conrad Editora, nos fala. É isso que um grupo de ativistas tem feito no Rio de Janeiro, saqueando a linguagem e o material de propaganda política espalhado pelas ruas. Ou, em discutível prática canibal, no pequeno cartaz afixado em obras de monumento artístico público: ''Não queremos arte, queremos guerra!'' Cada um que use suas armas!

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