ALFABETO VISUAL - Vale da Vida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de janeiro de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
A questão ambiental diretamente conectada a uma ação concreta é bandeira de luta pelos os que compreenderam que a evolução espiritual do ser humano passa pela necessidade em repensar valores que aparentam ser inquestionáveis, como a noção de progresso e desenvolvimento econômico. Afinal, o desmatamento como justificativa para o cultivo da terra, não trouxe, até agora, o fim da fome no mundo. Pior, agravou-se o problema. A terra não pertence mais aos filhos da terra, transformou-se em mercadoria.
Mas, se por um lado, a cegueira pelo poder e pelo dinheiro bloqueia caminho para as gerações futuras, por outro, cada vez mais pessoas se posicionam na contra-corrente desse fluxo suicida, para afirmar e reafirmar o direito à vida.
Sebastião Marcos é uma dessas pessoas.
Com um trabalho de conclusão do curso de artes plásticas, Sebastião criou um projeto chamado ''Vale da Vida'', que consiste, basicamente, em transformar uma área rural de sua propriedade, na cidade de Cornélio Procópio, norte do Paraná, em reserva florestal. Ou seja, ao invés dos 20% obrigatórios de reserva previstos na lei diga-se, no papel ele propõe um trabalho de arte, para reflorestar 100% da área.
Assim, indo na contramão do pensamento imediatista dominante, Sebastião cria um projeto para um certo tipo de ''escultura'' que tem suas raízes plantadas na ''arte ambiental'' que, desde pelo menos os anos 60, faz da paisagem seu lugar de criação plástica. Mais do que trabalho de ''artista'', o que se realiza é a construção de uma profecia. Uma aposta no planeta, onde a questão ética é inseparável da questão estética. Onde visão poética e ação política determinam o caráter de sua intervenção. Onde a economia é pensada a longo prazo, como possibilidade mesmo da área se tornar um estímulo para que outros proprietários repensem seus conceitos de uso do solo, e o lugar se torne, talvez, um santuário ecológico, atraindo investimentos e capital voltados para a arte, para o turismo, para a pesquisa científica, para o desenvolvimento humano.
Cada muda plantada, seja de um jequitibá, seja de um pau-ferro, de um ipê, de uma peroba, segue regras e critérios conforme a necessidade de seu crescimento e sua relação com o entorno. Mais: para garantir a seriedade do projeto, a área foi registrada em cartório como área de reflorestamento, não podendo ser vendida para outros fins senão esse, ecológico. Há, inclusive, um estatuto do projeto que prevê questões como visitação, destino e uso do espaço, abertura para pesquisa científica, etc.
Segundo Sebastião Marcos, cada árvore plantada é uma homenagem, seja pessoa ou evento. Sua idéia é localizar cada uma delas através de um aparelho GPS que dá a posição exata de qualquer árvore, identificando em nome de quem a muda foi plantada. O participante-colaborador dessa ação recebe um certificado de participação, numerado, não para cortá-la mais tarde, mas para que, daqui há 5, 50 ou 100 anos, esse nome continue vivo na memória das próximas gerações.
Assim, até o certificado se torna um elemento a mais que compõe o trabalho de arte, como capital simbólico.
Aliás, já está em fase de construção um site na internet (www.forlogic.com.br/valedavida) para informar com mais precisão sobre o projeto ''Vale da Vida'', que poderá ser acessado para maiores esclarecimentos.
Quem sabe, ao invés de pensar em cortar árvores como sinônimo de progresso, as pessoas comecem a perceber que é mais interessante plantar várias delas, como investimento acima do capital financeiro, porque é garantia de sobrevivência das futuras gerações. E isso está além da idéia de transformar a natureza em mercadoria, ou como diz o próprio nome do projeto, o que Vale é a Vida.
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