Parece até karma de artista. O sujeito morre incompreendido mas as idéias ficam. E de que o artista foge da realidade, trocando-a pelos seus delírios. O artista, no imaginário popular, como o louco, o demiurgo, o xamã, o iluminado pelos deuses, nascido para morrer pobre e sem reconhecimento pela sua obra, em vida. O defunto era uma pessoa boa, dizem, quase que sinceramente, os necrófilos. A noção de que o artista está em outra dimensão é, muitas vezes, reforçada pelos próprios artistas, mas é apenas a visão estereotipada de um certo tipo de romantismo.
Um caso contado foi que o poeta Carlos Drummond estava sentado em uma mesa de bar, tomando seu café, quando foi abordado por alguém que se auto-intitulava poeta e que gostaria de saber da opinião do autor de poemas como ''E agora, José?'' o que achava de seus poemas e se ele poderia ser reconhecido como poeta. No alto de sua experiência, o velhinho lhe disse que já era muito escrever poemas. Quem tinha de dizer ou não se alguém era poeta eram os leitores. E não quem tivesse a tal pretensão de se julgar um.
Artista, quem é? E como é que a arte pode acontecer entre nós? Porque se não há leitores, público, espectadores, também não haverá leitura, espetáculo. Nada poderá ser chamado OBRA. Se o outro é quem diz quem sou eu (como na historinha acima), então a relação deve ser complementar, para que aquilo que denominamos ARTE possa acontecer.
Aliás, essa é uma longa história: parangolé, Borges, Leminski, objetos sensoriais, etc. Ou seja, tudo o que já foi dito, lido, visto e ouvido, desde, pelo menos, o final dos anos 50. E que vai, por exemplo, da noção do público como participador, até a abolição de um lugar específico para a arte.
Quer dizer, arte não é só o que está determinado a ser arte (às vezes nem é), mas aquilo que cada um pode ver como tal: um pôr-do-sol ou uma hecatombe. Um lixo jogado no chão ou uma partida de futebol, por exemplo. E mais: quando, a partir de um olhar consegue-se estabelecer múltiplas outras relações de significados que se desdobram além do acontecimento ou da imagem vista. Relações que estão além da obviedade que os sentidos estão captando no momento, como as palavras que se abrem para outras dimensões de leitura; das imagens que contêm força além de sua aparência; ou de movimentos que se desenvolvem dentro de outros movimentos, abertos a inúmeras situações.
A arte não é de todo mundo que vê, lê e sente algo como sendo arte estando dentro de um espaço institucional ou não e nem do artista como um gênio incompreendido, como se este fosse alguém vivendo em uma dimensão fora da realidade, mas ela é e está nessa capacidade de transformar uma coisa em outra, de trazer à luz algo que, muitas vezes, já estava naquele lugar, naquele momento o tempo todo, sem que ninguém ainda tivesse percebido. Ela é fruto da inteligência, de um tipo de inteligência especial, sensível, mas não deixa de ser do mesmo tipo de inteligência necessária para uma descoberta científica, matemática. A gravidade existia antes de Newton!
É isso que faz a arte tão presente em nosso mundo. Mas que nos obriga, também, ao esforço contínuo de pensá-la não só como algo real, mas como parte do real, ao mesmo tempo. E o fato de alguém ser chamado de poeta, de artista, não muda nada a essência de um poema inspirado na vida. O que muda sempre é a nossa maneira de encarar os fatos, buscando evitar estereótipos de como alguém é ou tem de ser.
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