ALFABETO VISUAL - Uma gloriosa revolução
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de março de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Hoje é o dia! 40 anos da implantação da ditadura militar no Brasil. Tentar compreender seu significado à luz de qualquer tipo de teoria que tentasse explanar os motivos que levaram os militares ao poder e da atuação que tiveram nessas quatro décadas, seria perda de tempo preciosa, para quem sabe que ''o futuro já começou'', como uma promessa não cumprida de futuro.
Fomos levados a crer que tudo melhoraria e aí está: somos levados a crer que tudo melhorará. Eterna esperança! (aliás, ótimo nome para novela de TV). Mas, nem só de revolução vive o homem - ainda que ESSA revolução tenha outro nome: golpe! - e essa a questão que tudo faz mudar e ficar sempre tudo no mesmo compasso de espera até que tudo mude novamente, só para ficar na mesma.
Óbvio, em se tratando de pensar um tema tão desgastado, o uso da ironia não permite que se leve mais a fundo as consequências de tão traumática experiência, ora banalizada. Quer dizer, na tentativa de esconder nosso drama de vida, acabamos por nos tornar tão cínicos, que perdemos aqueles valores que tínhamos quando acreditávamos que ''dias melhores'' haveriam de vir. Não vieram e nos tornamos amargos. Portanto, não perdoamos a quem nos tenham enganado.
Mas, qual é mesmo o assunto, se já se pode sentir no ar bradarem as bandeiras conspiratórias que nos atacam, chamando-nos de antinacionalistas? Se já se ouve gritarem o nome de nossos heróis, nossos Sennas e Pelés que levaram orgulho pátrio para outras terras? Oh, grande amor, que nessa hora nos faz sentir desprezo por todos esses miseráveis sem mãe nem pai que precisam se esconder atrás de algo suficiente grande demais para jogar na cara de quem lhes desvendem a máscara, sua miséria humana, mas tão humana, que os torna - ainda que minimamente - dignos de alguma forma de existência. Mesmo aquele miserável que, na sarjeta, excluído de toda e qualquer possibilidade de viver com decência, mesmo esse que, ao cair-lhe aos ouvidos palavras como MST, reforma agrária, etc. lance pedras na direção de onde vem o som.
Oh, Gloriosa! Foste a última tentativa de mudar algo em nossas vidas e nós ainda a esconjuramos!
Mas é preciso ir além do cinismo. Mas, e depois que passamos dessa etapa o que é que nos resta, se nada se transformou, a não ser pelo fato da situação continuar a mesma? Por um lado a blasfêmia de quem usa o bordão ''ordem e progresso'' para manter tudo sob a mesma tutela de sempre. Por outro, imaginar um lugar sem tempo nem espaço é uma possibilidade perigosa, porque é o passado e o futuro que determinam o presente. Os projetos só podem ser executados porque possuem causa e efeito. E tudo é jogo de luz e sombra.
Resta, pelo menos, um consolo, amanhã é o dia da mentira, também. E, se a arte tem algo a dizer sobre isso, pode ser então que, da mentira dita através da arte, surja a possibilidade de descobrirmos alguma verdade nisso.
Mas arte não é, necessariamente, alegoria, transcrição ou representação de algo já existente. E, pensar algo como uma mentira ou como um golpe de Estado, refletido por uma atitude artística, pode nos levar a considerar que as utopias e os nossos desejos podem ser, também, o contrário daquilo que nos é dado a acreditar, somente para suportar e aceitar a realidade do jeito que ela nos é apresentada. Sem ilusões quanto ao fato de que as utopias costumam ser fascistas, já que prometem um futuro que nega o passado e exige sacrifícios e ilusões de quem vive o presente. Mas, também, sem acreditar que o tempo acabou e que podemos viver qualquer conexão com a realidade, como se tudo fosse uma grande mentira.
A glória de uma grande revolução é estar no meio de uma realidade na qual não esperamos coisas como honra e glória. Mas a de saber que podemos usar dessa realidade vivendo de modo crítico e criativo cada momento dessa vida. Isso pode não mudar nada, mas pelo menos ninguém vai conseguir nos enganar, também.


