ALFABETO VISUAL - Um sucesso de fracasso
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de outubro de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
''só eu não venço na vida, não ganho dinheiro, não pego mulheres, não faço sucesso...'' (Bechior)
Todo mundo tem um amigo ou conhece alguém que faz do fracasso estilo de vida. Niilistas de plantão, essas pessoas funcionam como consciência crítica de um mundo fadado ao sucesso, à felicidade, ao progresso.
Em um mundo condenado ao consumo fácil, ter alguém que faz do escárnio meta de vida, do erro seu mais fecundo aliado, da ironia sua salvação contra o suicídio, do cinismo sua libertação, pode ser melhor do que acreditar no jogo da luta do bem contra o mal, e optar por um dos dois lados. Ir por um lado acreditando eliminar o outro, é seguir como bom carneiro o chamado do pastor. Isso não funciona. Há coisas que, para dar certo, precisam dar errado, precisam fracassar. Ou, como se diz, a alegria do dono da funerária é a tristeza de muitas famílias.
E também tem o caso em que o conforto e a facilidade tiram a vontade de luta das pessoas, cortam-lhe as idéias pela raiz, transformam-as em seres infelizes, ao invés de dar-lhes ânimo e prazer. Se o acaso é o criador da humanidade, o erro é o criador dos deuses. Sem a tragédia, que seria do mito do Rei Édipo, por exemplo? Uma cidade não seria salva. Uma história deixaria de ser contada. É na tragédia que aceitamos viver entre os deuses, porque nos entendemos como homens.
Quem teve a oportunidade de ler o livro sagrado hindu ''O Ramayana'', que conta a história do príncipe Rama, vai lembrar do momento em que ele deixa sua mulher depois de ter reinado mais de 10 mil anos ao lado dela por simples fofocas de seus conterrâneos, que disseram que ela tinha sido tocada pelo demônio, que a raptara e teve que pagar com sua vida e seu império por tal ousadia.
Uma guerra do bem contra o mal feita por causa de uma mulher, para, no fim, perder todo o seu sentido. Como o rapto de Helena de Tróia. O que valia não era tanto o resgate da mulher, mas a honra perante a sociedade local. O desejo privado se curvando ao espírito público. Sobre fracassos, aliás, nada melhor do que lembrar das músicas antigas de um Vicente Celestino, como ''Coração Materno'', ou ''O Ébrio'', para ver quanto sucesso faz o fracasso. Ou então, um Lupicínio Rodrigues, cuja dor-de-cotovelo nos provoca as mais intensas emoções.
Tudo isso parece contraditório demais. E é. Mas foi por causa dessa contradição que a arte é o que é hoje. E tem todo o direito alguém dizer que não entende o que é arte. Ou o que quer a arte, além de entreter, seduzir, arrebatar. Porque ela lutou para abandonar o racionalismo, o determinismo, a linearidade, a idéia de parecer ou querer ser algo que pudesse ser visto como ''evolução'', que o contrário passa a ser, muitas vezes, a procura do mesmo. Como diria o pintor Jean Dubuffet: ''a arte está onde não se busca um estado de arte''.
Nesse sentido, o movimento dadaísta do início do século passado foi exemplar. Podemos pensar grandes obras em todos os outros movimentos de arte, mas não no dadaísmo, que queria, justamente, destruir a noção de arte. Era o fracasso de qualquer projeto artístico. O que valiam eram as idéias em questão. E idéias são sempre perigosas!
Um desses (anti) artistas foi o alemão que poderia ser o nosso colega em questão Johannes Baader. Com uma barba enorme ele se apresentava como um Deus-Pai-Dadá e desaparecia de tempos em tempos, a fim de passar férias forçadas num sanatório. E de tanto aprontar das suas, recebeu uma espécie de licença para fazer o que quisesse, ou seja, foi declarado demente pela polícia.
Estava livre para fazer o que lhe desse na telha, sem ser importunado. Entre suas ''loucuras'', foi candidato a deputado e depois se tornou presidente da ''Cristo Sociedade Anônima'', para recrutar todo aquele que quisesse ser um Cristo, também, sem precisar passar pelo serviço militar, mas, obviamente, nem a candidatura, nem a sociedade vingaram. E em outra ocasião, interrompeu o padre na catedral de Berlim, gritando do alto do coro, para onde subira com esta finalidade: ''não ligo a mínima para Cristo''. Quase foi linchado!
É, o fracasso é mais triste quando levado a sério. Mas um santo remédio para quem não se deixa enganar. Principalmente em um mundo onde a prosperidade, o progresso e a felicidade são colocados à venda em qualquer loja de shopping center, ao preço, apenas, que não se pense muito no que há de errado nisso. Até 2020, pessoal!
As informações e opiniões emitidas neste espaço são de responsabilidade do colunista


