Uma apresentação
  Maurício Dias e Walter Riedweg formam uma dupla de videoartistas que se conheceram em 1993. O primeiro é brasileiro, o segundo, suíço, mas depois do encontro com o brasileiro, ele agora é suiço-carioca. Usam o vídeo para contar histórias de porteiros; mostrar a realidade de garotos de programa; a situação de imigrantes; o drama de prisioneiros ou; a noite fria de cucarachas querendo entrar nos Estados Unidos. Mostram isso de um modo em que os personagens se tornam co-autores de suas propostas, indicando o caminho para o trabalho se concretizar.
  Entre tantas exposições em que exibiram o que fazem, pode-se destacar uma grande mostra no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro; uma instalação no meio de um camelódromo da zona oeste de São Paulo, no evento ArteCidade e; bienais como a de São Paulo, Havana e Veneza. Agora estão participando da badalada Documenta de Kassel, na Alemanha, o evento mais concorrido e com maior visibilidade global do meio artístico.

Uma explicação
  O trabalho da dupla MauWal, como são conhecidos Dias e Riedweg, toca muito nas questões dos fora-da-lei, dos bordelines, dos excluídos, dos que não possuem um canal de expressão para reclamar seus direitos. Usam a realidade como se fosse ela uma ficção. São quase documentaristas de suas próprias instalações artísticas. E mostram, muitas vezes, uma situação que preferíamos ignorar.
  Um dos dois trabalhos que estão apresentando em Kassel, parte de uma consideração a partir do próprio contexto do lugar, e se relaciona com a história da colonização do Brasil, feita pela Europa judaíco-cristã: a vídeo-instalação ‘‘Funk Staden’’.
  Como ficamos sabendo pelos livros, Hans Staden foi um mercenário aventureiro alemão, proveniente da cidade de Kassel, considerado um herói, por fugir dos índios Tupinambás, que comiam carne humana. Seu livro de viagens relata sua aventura pelas ricas e disputadas terras dos canibais e do uso ardiloso da lábia para enganar os índios e se sair bem da situação. Tudo em nome do Imperador e de Deus, obviamente. Seus relatos serviram de base para um série de desenhos de Theodore de Bry e inundaram a imaginação dos europeus sobre os ‘‘perigosos‘‘selvagens tropicais.

Um ritual
  Quando um menino de rua, que foi adotado por membros de alguma organização não-governamental francesa, recebendo estudo e alimentação por anos, rouba e mata seus próprios defensores, ficamos chocados e não entendemos porque essas coisas acontecem.
 Poucos de nós sabemos que os índios Tupinambás, assim como seus inimigos, os Carijós, não lutavam por posse de terras, mas porque eram guerreiros virís e, ao caçar um membro de outra tribo, tinha interesses não só em matá-lo, mas de fazê-lo reproduzir com as mulheres da tribo, evitando a eugenia. Não o comiam por fome, mas para obter sua força e inteligência, em uma grande cerimônia ritual. Para o inimigo vencido, isso era uma honra, por mais estranho que pareça às nossas fracas mentes cristãs. Para eles, não existia essa diferença entre estar morto ou vivo, tudo era parte de um mesmo sistema. Culturas diferentes pensam diferente, precisamos ter isso em mente.
Pois bem, em nome de Deus, Hans Staden livrou sua pele e, como bom covarde, fugiu do ritual antropofágico a que estava sendo convidado a participar – como alimento, claro.
  Hoje vivemos o avesso da Antropofagia, que é o Canibalismo, que é o ato de devorar um ser da mesma espécie por fome ou por puro prazer em matar.
  É esse o assunto de ‘‘Fun Staden’’. Vivemos uma realidade invertida, muito mais violenta que a ficção. Uma violência legitimada pelo processo de colonização e que agora se torna hit da moda em bailes comandados por traficantes, nas periferias. Como dizem os autores da videoinstalação, ‘‘o Rio de Janeiro é apenas um singelo retrato da perversidade que existe no capitalismo globalizado atual. O problema é inerente à nossa época’’.

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