É sob forte emoção que esse texto começa a ser escrito. Jardelina definha na cama, com um câncer no lugar em que antes havia um útero. Útero mater. Útero de louca arrancado em um hospital psiquiátrico décadas atrás. Como é que uma pessoa vai a um hospital psiquiátrico psiquiátrico! e lhe arrancam justamente o aparelho reprodutor? Além de tudo, na mesma instituição onde Austragésilo Carrano único autor de livro censurado no Brasil, por contar as mazelas passadas naquele local ficou internado. Livro que serviu de base para o filme ''Bicho de 7 cabeças''.
Mas não é hora de contabilizar o passado, mas de refletir e respeitar a convalescença de Jardelina, tão pronta a nos deixar que se recusa a abrir os olhos e deixar quem quer que seja, fora sua filha Zineide, a entrar em quarto, onde definha.
A mim, esse respeito se dá em forma de traçar paralelos de Jardelina com o assunto da arte contemporânea, uma vez que minha volta ao norte do Paraná passa por se interessar verdadeiramente por aquela mulher que eu tinha visto passar na rua, em frente à loja de meu pai, que fui visitar, na pequena Bela Vista do Paraíso, em 1995. A partir dali nossos destinos se entrecruzaram. Ela tinha uma missão: ''salvar o mundo da fome, da peste e da miséria'', segundo ela mesma. Eu tinha outra: registrar, acompanhar e tentar compreender essa mulher que todos chamavam de louca, que tinha sido expulsa da igreja (''minha fé ninguém tira'', ela disse em entrevista), que servia de desdém à cidade e, absurdo, estuprada no quintal da cadeia, dentro de uma velha Kombi, por um homem que não respondia por si. Na verdade, o que passava por problema ou doença na cabeça dos outros, a mim parecia alta voltagem poética, lucidez delirante. Alguma espécie de vidência. Mas, sobretudo, a criação de uma mitologia própria.
Obviamente essa minha visão não era única. Muitas pessoas mesmo na cidade viam em Jardelina um rompimento necessário com o cotidiano mortal que a sociedade impõe à individualidade das pessoas. E uma das questões que levanto depois desses anos todos de convívio é justamente a de que a maneira encontrada por Jardelina para responder à opressão e à repressão era gritar para o mundo que veio para salvá-lo: ''o mundo vai santidá!''. Do preconceito e da discriminação recebida, fez como o ''sândalo, que perfuma o machado que o fere''.
Repasso em minha cabeça as matérias escritas e os planos que tínhamos para mostrar seu trabalho. E também o desejo que visse ao filme que vai sair sobre ela, com imagens tomadas em 2002, quando Lucas Bambozzi, Cristiane Mesquista e Déborah de Paula Souza vieram de São Paulo a Bela Vista gravá-la e ela estava feliz da vida. Também a peça de teatro que eu sempre imaginei, agora a ser concretizada pela primeira Jardelina (depois da original) que eu achava que tinha que ser: Fernanda Coelho. E com outras ''jardelinistas'', xamãs e artistas, como a grande atriz Carla Dyacov. E mais Géssica Arjona, também de Bela Vista. Enfim, planos que eu pensava que um dia poderiam ser concretizados com ela viva e atuante, assim como outros, de levá-la a visitar sua terra natal, em Sergipe, onde, com certeza, muitos das histórias que ela contava poderiam ser interpretadas com mais rigor. De fazer a operação de glaucoma nos olhos, que ela tinha, para continuar costurando. De convidar um estilista de moda para se inspirar em uma coleção baseada nos modelos de Jardelina, onde ela pudesse participar da confecção das roupas. E, enfim, da realização de um livro, com fotos sobretudo do studio Pan, colocando-a em seu devido lugar no Olimpo da criatividade.
Além dos paralelos entre arte e sua criação, Jardelina sempre foi um abre-caminhos com suas ações livres do medo pela crítica social. Pessoas como ela criam a possibilidade de alterar costumes e comportamentos, já que seu espírito livre, não se dobra à censura da estrutura social vigente. Por isso, pôde tirar foto do próprio cheiro, ficando uma semana sem tomar banho para realizar isso. Pintar bigodes no rosto. Ou andar nua quando lhe vinha o ''espírito'' do pajé queimando-lhe a roupa sobre o corpo. Nunca foi subjugada pela regra do cala-boca imposto, em nome do bom comportamento.
Pois bem, Jardelina está indo, mas mesmo assim se mantém lúcida. Não quer mais abrir os olhos e só fala o necessário, para pedir algo, ou que lhe queimem alguns de seus trabalhos, operação essa que, paulatinamente, desmaterializa toda a sua trajetória. O resto, agora, é por nossa conta. É problema nosso!

P.S. Esse texto foi escrito dias antes de Jardelina falecer, no dia 03 de agosto de 2004.

As opiniões e informações emitidas neste espaço são de responsabilidade do colunista

mockup