Vida ou arte Na música, Roberto Carlos canta que ''a vida é amiga da
arte''. E esperamos que assim seja, porque se a vida fosse contrária à arte,
então, de onde retiraríamos a poesia do dia-a-dia para enfeitar a nossa
vida?
Para quem vive a arte do dia-a-dia, aliás, esta questão é ainda mais
inquietante, porque, ao abandonar a vida para se dedicar à arte, muitas
vezes a pessoa se torna um robô que pensa estar fazendo arte, enquanto a
vida lhe escorre das mãos.
Mas é possível pensar, também, que a arte é mais importante do que a vida. E
buscar na vida a beleza e a estética, transformando formas e matéria em
emoção. Trabalhando sem parar para deixar uma obra a ser admirada por todos.
Ou seu contrário, no hedonismo de quem sabe levar a vida como se ela própria
fosse um objeto a ser contemplado, aproveitando, se deleitando e desfrutando
de tudo aquilo que é possível viver. Admirando cada dia da existência como
um processo de arte contínuo, sem precisar da criação de objetos artísticos.
Museu de velhas novidades Ir a um museu de arte, ou a uma galeria de
quadros, desenhos e esculturas, ou até mesmo a uma catedral já não é mais
como era antigamente, quando tudo se descortinava como novidade. Agora, tudo
parece muito apegado ao tempo. Muito enraizado de história. Logo nos damos
por satisfeitos, saímos dos lugares satisfeitos em receber nossa cota de
cultura para consumo e já somos apunhalados com propagandas, outdoors,
anúncios, letreiros, carros passando, coisas acontecendo o tempo todo. Viver
em um mundo onde tudo se desloca com força vertiginosa, tornou nosso olhar
violento. Passamos a ser devassadores de imagens. Iconoclastas. Bárbaros.
É complicado pensar em alguém recolhido em seu atelier, em seu estúdio de
pintura, lutando com as formas, atrás de algo que possa ser original, como
se um Picasso, um Matisse fizesse sentido, ainda, entre nós. Ou ainda alguém
que acredite que possa ser ou existir um artista como era na Renascença,
onde toda a descoberta flutuava entre a magia e o espírito científico que
nascia.
Mudança de repertório Se voltarmos nossa atenção para o passado recente,
mais ou menos 10 anos atrás, perceberemos que o discurso da arte mudou. Não
só porque pessoas de outras áreas começaram a pensar sobre a arte, mas
também porque os artistas deixaram de ter, na própria história, razão para a
sequência contínua e linear de seus passos. Ou talvez porque os artistas
passaram a se envolver com outras questões que antes não faziam parte do
repertório das chamadas ''belas artes'', como o uso de elementos da
sociologia, da psicologia e, principalmente, da área tecnológica.
Se você não leu Argan, ou Rosalind Krauss, ou Greemberg, ou seja mais quer
for da teoria, da crítica e da história da arte, mas tem em seu computador
um programa gráfico, um ''corew draw'', por exemplo, você talvez esteja até
mais adiantado no debate que rege a arte hoje, do que aquele pintor
preocupado em aprender a ''cozinha'' da pintura, para fazer tintas.
Hoje, pelo computador, pode-se fazer músicas apenas aprendendo a manipular
um ou dois programinhas básicos. Pelo computador qualquer som pode ser
sintetizado e transformando do jeito que se quiser. Qualquer um é músico
agora, artista gráfico, videomaker, multimídia. É, multimídia é a palavra.
Se na Renascença o artista era completo, sabendo de todas as artes e
ciências, hoje qualquer um pode fazer o que quiser, manejando um computador.
Na teoria, os termos também são outros. Fala-se em hiperlink,
interatividade, jogos de rede, realidade virtual, interface e todo um
vocabulário que aparenta ser muito menos sensível do que técnico, lógico.
O verdadeiro artista Agora, se você não tem um computador, ou o máximo
que você sabe fazer com ele é jogar ''paciência'', mas, por outro lado, não é
um escravo do trabalho, nem um robô naquilo que faz, nem vê a vida como uma
''oportunidade para se dar bem'' e, principalmente, se você não fica fazendo
apologia da ignorância, como aqueles que batem no peito se engrandecendo
porque nunca leram Rosalind Krauss, então, talvez a vida te tenha feito um
artista nato.
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