Estamos sob o domínio da chamada Globalização. Se por um lado, é imposto um mesmo padrão de consumo no mundo todo, desrespeitando culturas locais, essas mesmas culturas precisam se fortalecer criando linguagens que possam servir à sobrevivência das diferenças entre os povos e enriquecendo, de forma geral, a cultura no planeta. E isso quer dizer não só a proteção do que já existe como as culturas das nações dos índios brasileiros, latino-americanos, norte-americanos, africanos, malaios, asiáticos, etc que acabam sendo rotuladas de culturas ''exóticas'' mas também na construção de linguagens apropriadas às culturas locais, às cidades que não pertencem aos eixos de poder, aos chamados países de segundo e terceiro mundo, como é o nosso caso.
Não se trata, no nosso caso, somente de criar uma linguagem especificamente brasileira, mas uma linguagem que não seja devedora das chamadas ''culturas desenvolvidas'', principalmente em relação aos Estados Unidos, potência hegemônica que prega um modelo não adequado à nossa realidade. Ou seja, que não leva em consideração o contexto ambiental, cultural e humano onde se instalam.
Mais do que isso: não adianta São Paulo querer parecer New York; Curitiba querer parecer São Paulo; Londrina querer parecer Curitiba; as pequenas cidades do interior do Norte do Paraná se maquiar para parecerem Londrina e; por fim, as pequenas vilas aparentarem aquilo que elas não são e jamais serão. Principalmente quando essa influência quer dizer abandonar suas raízes para buscar um Eldorado que não existe, senão na imaginação dos inocentes e na ganância dos que querem se manter no poder a qualquer custo, utilizando para isso a boa fé dos cidadãos à mercê das informações da grande mídia.
Cultura de exportação é e será sempre um problema enquanto não fortalecermos verdadeiramente o que nos distingue do OUTRO. Não adianta ser ou querer ser o maior exportador de soja do mundo enquanto as cidades vivem um processo de marginalização e violência jamais vivido em toda sua história. Não adianta passar uma imagem de ''desenvolvido'' enquanto não descobrimos nossa vocação de celeiros do planeta. Ou usando nossa criatividade mestiça para, justamente, fazer arte com ''padrão global'', mesmo que usando nosso ''exotismo de butique''.
Um exemplo disso é a discussão que tem gerado a construção de um teatro municipal em Londrina. Alguns defendem essa idéia como importante para receber grandes companhias nacionais e internacionais, além de dar maior visibilidade ao trabalho artístico de grupos locais, dizendo que a cidade não possui um edifício à altura de grandes montagens artísticas. Por outro lado, outros apontam os edifícios já existentes como abandonados pelo poder municipal e pelo público, que não prestigia o trabalho artístico e cultural local. E um terceiro ponto de vista envolvido nessa discussão é o fato de que os que terão acesso a esse benefício são os que podem pagar para ir a Curitiba, São Paulo ou Rio de Janeiro assistir um concerto, coreografia ou uma peça de teatro de alguma companhia internacional.
Sim, Londrina precisa de um teatro a altura de sua arte, de sua cultura, que vem, a cada ano, se destacando tanto externamente como internamente. As pessoas estão se interessando pela arte produzida na cidade, como produto de qualidade. Assim como tem acontecido com o cinema nacional em relação à produção mundial. E isso é inegável. E saudável!
Mas por que a verba para a construção de um edifício como esse tem que sair do bolso do contribuinte? Será que as empresas que tanto lucram com a cidade, os bancos, os supermercados, os hotéis, enfim, será que eles não têm interesse em financiar um monumento desses? Pelo menos um compromisso sério é preciso cobrar desses agentes privados que atuam na cidade, para que a cidade possa se desenvolver sem que o poder público continue bancando, inclusive, o acesso à cultura de quem tem poder econômico para tal investimento.
O dinheiro público para projetos como o do teatro municipal, ou centro cultural, deveria servir para investir maciçamente em projetos que privilegiassem o desenvolvimento da cultura local. Com os artistas e os produtores culturais envolvidos em um projeto educacional e político voltado para os bairros e comunidades carentes, levando a eles oportunidades que, de outra forma, jamais teriam acesso. É a partir de uma visão como essa que ainda reside a esperança de uma renovação original da linguagem e da paisagem humana local. Quer dizer, dar condições, treinamento e salários condizentes aos agentes culturais e ampliar os tentáculos dessa verdadeira ''rede da cidadania''. Algo envolvendo todas as secretarias, governo estadual e federal, por exemplo.
Esse é o grande investimento de onde ainda pode surgir um pensamento que se multiplique em várias ações e alternativas ao modelo vigente, imposto como padrão. Não a utilização de mais concreto e vidro para dizer que a cidade está se desenvolvendo.
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