Precisamos estar atentos para, ao lançar fora os mecanismos metafóricos e simbólicos de uma arte que se paute na relação com a vida e despida de vocação para servir de peça de museu ou decoração de paredes, não cairmos, novamente, na funcionalidade pragmática de uma vida sem poesia. Não somente aquele tipo de vida padrão e mecânico do emprego, do seguro de saúde, do trabalho escravo. Mas a de uma arte que não tem nada a dizer, a não ser se passar por panfletária ou politicamente correta.
Por exemplo, quando o artista coloca uma cadeira sob a sombra de uma árvore, em uma praça, para que o passante possa se abrigar e descansar, sem saber se aquilo é ou não um trabalho de arte, fazendo seu esforço se tornar algo parecido com algum tipo de instalação de ''equipamento urbano'', que deveria ser resolvido pelo poder público.
Obviamente isso não desqualifica a ação, mas, de qualquer modo, somar a essa possibilidade de uso prático, uma certa carga simbólica, metafórica, pode trazer ganho poético adicional ao trabalho, que ele não teria, caso fosse completamente despido da idéia de ser ou não ARTE. Afinal, boas ações fazem parte do exercício da cidadania.
O que estamos tentando esclarecer, nesses casos, é que, em se tratando de qualidades estéticas, o mundo passa a ser uma representação de mundo, mesmo que seja NO mundo e PARA o mundo que estejamos falando. E a arte, no ocidente, não precisar servir, necessariamente, a um fim específico.
Claro que, ao evitar criar uma obra que não seja nem funcional, nem decorativa, podemos estar caindo no erro das exclusões, perdendo o que uma e outra podem nos trazer enquanto possibilidade adicional de criatividade para a realização de trabalhos artísticos. E, portanto, quer se chame a isso de arte, decoração, ou mesmo ''equipamento urbano'', o fato é que, em vez desses adicionais se tornarem um empecilho para a criação, eles podem aumentar, ainda mais, a carga poética de uma ação.
De todo modo, para quem se arrisca a fazer da vida uma experiência artística, tudo se torna um ''work in progress'' (trabalho contínuo) onde os paradoxos e as contradições fazem parte da própria fatura desse posicionamento diante do mundo em que vivemos. Em que material teórico e prático participam do mesmo delírio criativo que, como as águas do mar, atiradas em fúria contra os rochedos, voltam em refluxo de onde vieram, configurando-se em novas e novas ondas.
Será inútil procurar um ponto de equilíbrio em meio à revolta? Ou o equilíbrio é só um ponto no meio do desequilíbrio, que é, por si só, pai do movimento? De qualquer forma, que esse movimento se torne consciente de sua força e de sua ação, essa é a meta: uma abertura para o (auto) conhecimento.
Enfim, a relação proposta entre arte, vida e experimentação é a afirmação de uma postura crítica, de ''suspensão'' da realidade, para que aflorem suas contradições e possibilidades de intervenções. Um buscar ''o fim último de todas as coisas'', como define a escatologia, e, ao mesmo tempo, como pesquisa genética. Paradoxos. Onde a própria destruição é parte de um princípio único de um eterno fluxo criativo, de poder ao mesmo tempo concreto e simbólico.
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