ALFABETO VISUAL - Sobre os discursos tecnológicos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de agosto de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Arte e tecnologia - Alguns autores contemporâneos, principalmente os que se voltam para os novos meios de informação, colocam que as tecnologias eletrônicas, computacionais, cibernéticas, seriam a razão evolutiva da arte.
Como se, desde o início do modernismo a arte tivesse, como fim último, a pretensão de se tornar tecnológica, no sentido da simulação computadorizada. Apontam, nesse sentido, que a arte - particularmente a que busca interatividade - vem se ''desmaterializando'' ao longo de sua história, como é possível observar pelo menos desde os trabalhos de Marcel Duchamp, já na década de 1910, passando pelos movimentos dos anos de 1950 em diante, como o Fluxus e o Situacionismo, indo até a arte conceitual, pelo menos, a partir da década de 1960. Obviamente que o computador pode ser usado para ser algo mais do que uma ferramenta para o desenvolvimento de trabalhos, artísticos ou não, funcionando como algo além do que um pincel. Inclusive porque através de suas interfaces é possível movimentar robôs, fazer cirurgias à distância, criar a ilusão de objetos tridimensionais virtuais em um espaço concreto, etc. E, além disso, comunicar-se em rede, o que transforma a linguagem do computador em uma espécie de instituição que abarca a idéia de mídia de longo alcance. E mais, como galeria ou instituição de arte, também. O que garante a veiculação de uma boa demanda de trabalhos que, de outra forma, teriam que amargar nas gavetas a espera de um curador ou crítico que aferisse o valor de ''obra de arte'' à produção de muita gente séria.
Pós-humanos e pré-humanos - O artista performático Sterlac vai mais longe. Descreve o corpo como material obsoleto, onde os vários mecanismos tecnológicos podem substituí-lo. Aposta na tecnologia como possibilidade de acabar com a maternidade e à própria idéia do ciclo entre a vida e a morte. Ou seja, liquidar com a questão biológica, transformando tudo em máquina. Para ele, até hoje ''a filosofia está fundamentalmente baseada em nossa fisiologia'' e na era do pós-humano, e é preciso repensá-la.
O que precisa ser visto é que até chegar ao pós-humano, ainda há muito que fazer para livrar muitos humanos da condição de pré-humanos. E conjugar a equação entre detenção do controle da produção e exploração ambiental. Toda vez que uma máquina substitui a força de trabalho de muitos homens, nem sempre a consciência humana evolui com a mesma intensidade. É só lembrar dos aparelhos de som em muitos carros que circulam pela cidade fazendo estrondos com músicas de qualidade duvidosa.
Usando a máquina - De fato, a tecnologia evoluiu. E não se aproveitar dela para construir os discursos mais amplos, inclusive com conteúdos sociais e comportamentais, seria um desperdício de oportunidade, ou, quando muito, uma falta de visão para se apoderar de mídias tão potentes quanto essas que se apresentam. Se a velocidade da informação hoje é o grande produto do mundo em que vivemos e o controle dessas informações não pode ser, de todo, mapeado, então é possível inventar mecanismos que possam, ao mesmo tempo, funcionar como veículo de inclusão social, além de se tornarem ferramentas para o desenvolvimento de meios expressivos.
Aliás, expressões como xamanismo tecnológico e cibercultura ancestral já fazem parte do vocabulário utilizado por vários usuários que adotam a web, por exemplo, para trocarem as mais incríveis experiências. Experiências essas que passam por conexões com tribos indígenas, guerrilhas urbanas e nacionais, informações de ponta e toda uma série inimaginável de circulação de idéias que, com certeza, tem a ver com certa tradição da arte. Em direção (também e não só) à sua total dissolução, sua definitiva desmaterialização.
[email protected]


