No meio de tantas afirmações sobre arte, sociedade e cultura, como, por exemplo, a questão da autoria, da propriedade, das margens políticas em que se pode tocar, a questão da intertextualidade, a hibridização, a contaminação, a inter relação entre linguagens, a interdisciplinaridade, etc. que tem a ver com o que de mais contemporâneo possa se estar sendo pensado no mundo hoje, um sentimento romântico rompe com todos esses atos de coletivismos, participação, grupos de discussão, livros sociológicos etc. para pular para uma individualidade exacerbada, onde o único sentimento possível é o da paixão amorosa.
Confluência em que os sentidos ficam completamente embriagados do mais puro desejo de encontrar na vida aquilo que o mais humilde e também o mais arrogante desejam: o amor. Fora essa dimensão não há o que interesse. Seja a prisão do ditador ou a libertação de um justo. E se isso é muito pouco e se representa um retrocesso, vamos dizer, em termos de defesas de territórios conquistados por qualquer utopia pirata, então esse retrocesso é o único capaz de manter acesa a chama da vida em sua mais sublime intensidade. Só a eternidade interessa à poesia!
Portanto, falar de uma arte precária e perecível, de uma arquitetura nômade, partir em defesa da poligamia tribal, de uma arte feita de fluxos e processos, sem obra, sem objeto, sem começo, meio ou fim é como esquecer que estamos no terreno onde os sentimentos são maiores que as idéias, por melhores que elas sejam.
Como pensar em ''corpo/mente função única'' se a única coisa a existir no momento em que a paixão arrebata a alma de um ser vivo é o coração? Ora, de que servem todas as teorias para quem está tocado pela magia da vida?
A arte sempre se alternou entre momentos de idéias e momentos de paixão: do renascimento ao barroco. Do clássico ao romântico. Talvez só do moderno para o contemporâneo que essa alternância esteja sendo menos visível, embora, nos interstícios da própria história da arte, tenha sido a paixão a que move o sonho secreto do momento em que estamos vivendo.
E que, por mais que recusemos esse sentimento de imortalidade. E que neguemos, inclusive, a existência da alma, para não cair nos dogmatismos fáceis dos discursos acadêmicos, afirmando apenas a imanência do ser, não deixamos de querer, nem por isso, de viver nosso instante com a eternidade e rodar com ela pelos salões imemoriais do infinito.
Marina Abramovic, a artista iugoslava que, desde os anos 70 vem realizando performances as mais radicais, como deixar um monte de objetos em uma mesa e ficar parada esperando que os outros usem esses objetos contra ela facas por exemplo e que é capaz de ficar até 12 dias exposta, ela mesmo, nua, em uma galeria, sem comer e sem conversar com ninguém, disse, em uma entrevista (publicada recentemente no caderno Mais! da Folha de São Paulo) para a performer norte-americana Laurie Anderson, que gostaria de viver por mais tempo que lhe fosse possível. Suas experiências místicas relatadas no jornal fazem crer nessa possibilidade. E seu trabalho não deixa dúvidas quanto à sua força.
Por que não pensar, também, em um Niemeyer, 96 anos, ativo, ainda criando, independente da crítica à sua obra formalista? Ou a um Fidel Castro, que disse que ''quando passam a te chamar de demônio, todos querem conversar com você''. Talvez, mas em matéria de pensar nosso momento nesse planeta e a eternidade ao mesmo tempo, nada melhor do que se espelhar nas grandes tradições místicas e populares, que transformam uma pessoa do bairro mais humilde da cidade em um ser divino e orgulhoso, com a dignidade de quem sustenta uma cultura e uma tradição.
Então, mesmo essa época em que vivemos, extremamente voltada para o consumo rápido, para a robotização das pessoas, para a padronização das idéias, para que todo mundo sinta-se um pouco de plástico, não há como deixar de tocar em algo místico, por que é da parte do amor e, sendo assim, relacionado com o secreto. Tem a ver com o desejo, mas se parece com algo mais próximo de uma conspiração do destino. Quem não sente isso na pele não pode entender o significado da palavra inspiração, do gozo do gênio atravessando toda a superfície de um material que era para continuar duro e se torna maleável, submisso ao seu toque revelador, como se algo se apresentasse pela primeira vez, embora já estivesse ali desde sempre. Quem não sente isso a paixão sobre todas as coisas só consegue viver um tipo de contemporaneidade padrão, como crítica e não como sonho desenraizado de qualquer sentido social. Uma grande aventura nesse planeta é o que cada um merece!
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