ALFABETO VISUAL - Síndrome da Realidade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de julho de 2005
Lucas Bambozzi<br> Especial para a Folha2 
Definição de termos Definições como realidade e atualidade requerem
hoje em dia conceituações mais cuidadosas. Há indícios de que vivemos num
contexto onde essas palavras se desgastaram de forma mais acentuada, sob
influência de uma série de acontecimentos que ensejam uma idéia de real, ou
melhor, um discurso que se forja como real e de estéticas que se travestem
de real, mas que buscam na realidade mais rasa o substrato de seus produtos.
Mediações Tal como uma síndrome, os vestígios desse contexto se espalham
em direções díspares, o que pode ser detectado em vários segmentos
culturais. A publicidade há muito se apropria de uma suposta estética
documental, ou de uma legitimidade proporcionada por fatos reais, como nos
depoimentos com câmeras tremidas ensejando a sintaxe do precário que se
pretende verdade. O design se inspira na autenticidade dos traços populares
e espontâneos, nas grafias imperfeitas, nas fontes toscas.
Os Blogs são um fenômeno nítido de inspiração na realidade e de
potencialização do ''ordinário''. Autênticos no que sugerem em termos de
descentralização do pensamento institucionalizado, na Guerra com o Iraque,
por exemplo, se constituíram como as mais confiáveis fontes de informação e
de registro direto do sofrimento dos civis atingidos e da comoção popular.
Games Mesmo no universo das imagens de síntese, ou nos vídeo games, onde
potencialmente a realidade não se impõe como convenção estrutural, na forma
de pré-condição técnica ou diegética, mesmo ali toma-se emprestado não
apenas uma estética, mas conceitos e situações da realidade que servem de
base para toda uma geração de jogos. Em muitos, o avatar não é mais um
super-homem, mas um cidadão comum, membro não da classe dos especiais, mas
dos oprimidos. ''
Vagamundo'', por exemplo, é um jogo que reflete as dificuldades e
preconceitos sofridos pelos imigrantes latino-americanos em Nova York. Há
games em que o usuário é convidado a se colocar na condição de um negro que
deve procurar formas de construir uma vida digna, também em meio às
aventuras impostas pela realidade mais crua. O simulador de realidade ''The
Sims'' se tornou um fenômeno de vendas oferecendo ao usuário uma série de
situações absolutamente banais. Na ponta das experiências com os sistemas
wi-fi, está o grupo inglês Blast Theory cujos games utilizam personagens
reais que recebem informações via telefonia celular, GPS e computadores de
mão do tipo Palmtops, na condução de tarefas que envolvem uma intrincada
troca de informações entre usuários on-line e outros em movimentação nas
ruas da cidade, configurando um ambiente híbrido, um sincronismo de
situações e espaços virtuais e reais, sempre em conexão absoluta com a
atualidade da vida pública e urbana.
Arte Na produção artística há que se considerar o quanto as práticas de
intervenção urbana ou nas mídias vem se desdobrando a partir de uma suposta
confluência entre um pensamento político e que utiliza a arte como
estratégia, ou de uma arte que se lança no real como urgência de ação. Em
ambas as vias, o real se mostra como campo de forças, o local de embate de
uma arte que se deixa manifestar pelo contexto. Coletivos em todo o mundo
vêm deixando marcas de suas atuações no tecido imediato da sociedade, em
ações diretas como a adulteração de anúncios publicitários, ataques a
bonecas Barbie (''Barbie Liberation Organization''), o constrangimento de
organizações pró-globalização (''Yes Men''), o desmantelamento de sites de
fabricantes de transgênicos (''RTMark''), e em outras intervenções que devem
se constituir numa marca bem registrada desse embate da arte com a
necessidade de ação no universo do real. Brian Holmes, um estudioso atento
desses movimentos, aponta o quanto alguns desses trabalhos-manifestos
produzem deslocamentos, transformando o ordinário em beleza a partir do
enfrentamento da verdade. Esse traço de realidade vem sendo impresso em
frases de coletivos ao redor do mundo. Os dizeres ''We're not surplus, we're
a plus'' (algo como ''nós não somos o supérfluo, somos o adicional'', sugerido
então como diferencial) foram utilizados como slogan nas demostrações de
desempregados na França pelo grupo de arte-política ''Ne Pas Plier''. ''Cadê o
Horizonte'' foi uma frase vista em passagens subterrâneas na cidade de São
Paulo, aplicada pelo coletivo ''Contra-Filé''. ''Algumas coisas você nunca vai
saber pela mídia'' foi uma provocação do grupo ''Formigueiro'' impressa em
postes de anúncio ao longo da Avenida Brasil na capital paulista, que se
mostra como suporte e inspiração para uma série de ações nessa linha. A
exemplo do que se passa com os grafites, Holmes sugere que essas inscrições
na realidade, uma vez descoladas do óbvio possam adquirir o potencial
enunciador de um hieróglifo, como um traço para a compreensão da arte
produzida neste tempo.
* Lucas Bambozzi trabalha com meios digitais e eletrônicos e é professor de
arte.


