ALFABETO VISUAL - Sabedoria e conhecimento
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de março de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
A idéia corrente que temos da palavra conhecimento é aquela que vem do ensino e do aprendizado do funcionamento das coisas. Da necessidade de se resolver um problema. Conhecimento também remete às pesquisas que são feitas para apreender um fenômeno. E, então, detê-lo. Transformá-lo. Ou usá-lo para fins específicos. O conhecimento, enfim, é uma ferramenta de acesso ao que antes estava limitado à escuridão. Preso às malhas da ignorância.
Há várias formas de conhecimento, além daquela que aprendemos na escola, ligadas à educação formal. Ou o conhecimento prático, do dia a dia. Mas as pesquisas de desenvolvimento tecnológico - todas elas - são justificadas pelo conhecimento científico, fortalecendo uma relação de valores hierárquicos sobre a importância de um conhecimento sobre outros.
O conhecimento científico garante e colabora com o sistema produtivo e, justamente pelo fato de ser ''científico'', ele não é questionado e nem mesmo se questiona. Ele não se é auto-reflexivo. Não se pergunta para que e, principalmente, para quem ele serve.
A cultura moderna aceita certo tipo de conhecimento, mas não tolera mais a sabedoria. Não levamos mais em conta a intuição, por exemplo. Ou o empirismo. E, mesmo o auto-didatismo não é valorizado sem um diploma que o sustente.
A vida mudou. E não há mais como nos relacionar com a natureza da mesma forma que nossos avós e bisavós faziam. Ou receitar ervas que curam, como usavam as curandeiras, ou os índios. Parece tudo tão primitivo. E, primitivo, em nossa sociedade, quer dizer atrasado, arcaico. Sem valor.
A sabedoria dos antigos relacionava o canto dos pássaros, ou o vento às chuvas, ou a algo que ia acontecer. Hoje não vivemos mais sem as estatísticas. A sabedoria é holística, pensa na causa do fenômeno. Abarca um conceito geral das coisas. O conhecimento é especialista. Tem por meta a resolução de problemas específicos.
Sabedoria é poesia. Conhecimento é prosa. E a poesia é a condensação do conhecimento. Um analisa, outro, sintetiza. Alguém pode saber tudo sobre pintura, mas isso não o torna um artista. Mesmo que esse alguém seja um pintor. Ou, como disse o artista Robert Smithson, em um relato de 1968: ''as certezas do discurso didático são arrastadas na erosão do princípio poético''.
De todo modo, não é contra o conhecimento que devemos lutar. Mas contra o uso do conhecimento como forma de manutenção do poder. O douto-poder. O poder que é usado para a manutenção de privilégios. Mesmo quando é em nome do acesso à informação que esse conhecimento é comunicado. Como se fosse isento de intenções e tratado como algo neutro, sem maiores consequências.
Como sempre, é a arte, com sua linguagem metafórica. E com suas mil entradas às interpretações. E, principalmente a arte sem julgamento moral, ou, a que não quer produzir uma mensagem, mas indicar um caminho para a percepção do que nos rodeia, que tem a palavra final, como se pode ver nas palavras do compositor Frank Zappa: ''Informação não é conhecimento./ Conhecimento não é sabedoria./ Sabedoria não é verdade./ Verdade não é beleza./ Beleza não é amor./ Amor não é música./ E música é o que há de melhor''.


