O filósofo alemão Friederich Nietzche faz uma distinção muito nítida entre um tipo de arte que seria da essência do Dionisíaco e outra, ligado a outro deus grego, que é Apolo, a arte Apolínea.
Dionísio, o deus do vinho, celebraria um tipo de arte em que a intuição, o desregramento, as forças animais, viscerais, o inconsciente, a improvisação, o gozo, seriam as forças em jogo da criação artística. Já Apolo com seu carro de fogo em direção ao sol, seria o inspirador de uma arte racional, objetiva, planejada, construída e pensada passo a passo, mais para o intelecto do que para o coração. Para Apolo, a obra. Para Dionísio, o processo, a experimentação.
Mas, se estamos a falar sobre arte. E a falar sobre arte como um exercício de liberdade, então podemos crer além das diferenças que separam a arte apolínea da dionisíaca que, talvez, em algum ponto, exista um ponto de fusão de dois tipos diferentes de abordagem para o mesmo assunto, com a mesma intensidade cerebral e de emoções.
Porque o belo se distingue na arte. Porque a estética define um conceito. Porque nem tudo o que é belo é bom e bonito. E nem tudo o que é feio, é inútil e injusto. Aliás, muitas vezes o que é considerado feio pode ter mais sentido do que algo considerado bonito, mas vazio. E estética pode ser definida assim: algo que toca, comove, faz sentir.
Há também uma outra abordagem para esse tipo de visão, que é a visão oriental de todas as coisas que se relacionam, como o branco e o negro, o feio e o bonito, o dia e a noite, a sombra e a luz, o princípio masculino e o feminino. Nesse tipo de pensamento nada é necessariamente bom ou mau. Mas tudo é parte de um mesmo processo em eterna circularidade.
Além disso, a arte atua no campo do simbólico. E uma coisa pode querer dizer ela mesma, ou se contradizer. Um copo d'água pode representar o mar ou a procura de um oásis no deserto, dependendo de como esse copo é colocado, aonde e por quem ele é visto. Pode até mais, quer dizer, pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Daí pensar que a interpretação é livre. E que cada pessoa que vê esse copo (aqui imaginado) faz sua própria leitura do que ele é ou possa deixar de ser.
Assim, a arte Dionisíaca passa a ser Apolínea, pois a repetição das experimentações leva à criação de um método. Mesmo que um método livre e arbitrário, onde o acaso é só uma de suas possibilidades.
Dessa forma, é possível transferir a responsabilidade do olhar também pelo que se conclui daquilo que se percebe, pois agora aquele que vê, lê, cheira, ouve, tateia, também é criador de um mundo próprio e divisível, onde, ao mesmo tempo em que se cria esse mundo, esse mundo refaz as relações entre idéia e coisa, criador e criatura. Onde um e outro, no caso, se misturam, se fundem e confundem. Um homem no meio da multidão é multidão sem deixar de ser o que é. Mas um homem também é uma multidão. E nele ecoam todas as falas desses seres tão distantes na memória, tão ao alcance das mãos. Como a fotografia de um copo d'água derramada sobre nossa sede de ver tudo além de uma simples representação. E beber a imagem, nesse caso, pode ser mais do que uma simples metáfora. Aonde nada é dado, tudo é interpretado.

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