''O olho é o mais exigente dos sentidos'' (Leonardo da Vinci)



A arte moderna, ao propor a independência da imagem em relação ao mundo visível, supera a discussão sobre a cópia, a mimese e a representação como ideal a ser perseguido pela arte, como se esta estivesse condenada à imitação da natureza em nossa cultura grego-judaico-cristã.
Não foi pouco se livrar do discurso platônico, onde o papel da arte estava estrito à aparência das coisas visíveis. Para Platão, ''a criação perfeita seria possível apenas, para o Demiurgo, o Deus que cria o Universo'' (MARTINS, 1988).
Nesse sentido, a obra de Cézanne funda o caráter que assumiria a arte moderna, utilizando-se de linhas, formas e volumes, de modo que a composição ganhe independência da representação: seja de uma paisagem, de uma natureza-morta, ou de um retrato. O que vale é o quadro, em si, como parte do mundo e não como algo (a representação) que diz sobre outro algo (o representado).
Mesmo depois que a arte ganha sua autonomia plena, via Mondrian, via o abstracionismo, etc. em que o discurso da arte é a própria arte e seus aspectos constitutivos, o movimento surrealista volta à representação. E embaralha, não sem humor, nossas percepções entre a imagem e a sua verossimilhança com a realidade, retomando questões caras à história da arte como o ''trompe l'oeil'' (a ilusão ótica) e o uso da perspectiva ampliando limites do discurso artístico através da metalinguagem.
É, aliás, pelo recurso da metalinguagem, que o Surrealismo se salva de ser um movimento meramente formalista. Ao fazer da própria palavra imagem, o Surrealismo cria a possibilidade do intercâmbio entre disciplinas artísticas, como a pintura e a literatura, de onde provêm vários de seus integrantes, como André Breton, um de seus fundadores. Assim, partindo das lições cubistas de colagens de jornais, o texto, no surrealismo, se transforma em imagem, em signo gráfico, em parte constitutiva da imagem.
Um exemplo clássico dessa relação metalinguística, de ''afirmação e negação, oposição e cumplicidade'' (MARTINS, 98), onde a ambiguidade se torna fundamental para o jogo das idéias, é a tela ''Les Deux Mystéres'' (1966), de René Magritte.
Trata-se da imagem de um cachimbo que parece voar na superfície pintada, na parte superior esquerda do quadro. Logo abaixo, um cavalete segurando uma moldura, com uma tela pintada. Dentro desta tela, há um outro cachimbo pintado, tendo abaixo a seguinte inscrição: ''isso não é um cachimbo''. Tudo isso sobre um fundo representando uma parede e um chão de madeira.
Como diz Argan (in ''A Arte Moderna'', 1998) sobre as obras de Magritte: ''Ambiguidade entre uma imagem da realidade (o quadro) e uma imagem de uma imagem da realidade (o quadro no quadro)''.
Nesse sentido, não é só ''a imagem de uma imagem da realidade'' que se depreende do quadro, mas tanto o discurso visual quando o discurso verbal acabam se fundindo em nova configuração: verbivisual. É novamente MARTINS (pág. 27, p. 7) apoiada em Foucault (1926-1984), quem nos fornece pistas para refletir sobre essa questão: Considerando a obra como pintura, as letras são apenas a imagem das letras, eternizadas pela obra de arte. Considerando a figura como quadro-negro, ela é apenas a continuação didática de um discurso, a lição do mestre que apresenta a imagem e seu enunciado. A letra caprichada do calígrafo, do professor, entretanto, não confirma o que estamos também habituados a ver em muitos quadros-negros e em cartilhas e livros: ''isto é um cachimbo''. Na verdade, ''isto é o desenho de um cachimbo''.
Na verdade, ao discorrer sobre a questão relativa entre a palavra e a imagem, precisamos estar atentos para que o discurso de uma e de outra, possam transitar em pólos diversos, sem perder a origem da idéia, a partir da qual a linguagem pode ser consumada.
Mesmo este texto não deixa de ser uma pintura. E, antes que nos perguntemos o por quê, podemos compreendê-lo como simples exercício de criação, saindo de um contexto em que a palavra e a imagem, ao somarem-se, torna-se um terceiro elemento, que não é igual à adição de um mais o outro, mas algo original e híbrido entre esse e aquele.

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