ALFABETO VISUAL - Quase nada, quase tudo
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terça-feira, 13 de agosto de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
São Paulo Chegar ao vernissage na galeria de arte Luiza Strina e ver aquele espaço imponente tomado pelo trabalho da artista Fernanda Gomes, foi um impacto. Porque fosse qual fosse a sensação, não imaginei que pudesse ser pego de surpresa, ''conhecedor'' de arte em geral e do trabalho de FG, em particular. E a frustração veio por não conseguir compreender seu trabalho no justo momento em que ele se dava aos meus olhos. Mas a frustração era minha, não dela, o trabalho estava lá e pronto, ninguém era obrigado a gostar.
Um senhor, simples, com a esposa pássaro fora do ninho disse que sabia tratar-se de ''pintura'' de mulher. Perguntei como ele sabia, ele respondeu: ''é bobo''. Perguntei quanto ele pagava, respondeu: ''dois reais para pintar por cima''. Mas custava quatro mil e quinhentos.
Logo em seguida, encontrei-me com o poeta João Bandeira, que fez a curadoria da exposição do grupo Noigandres, em cartaz no Centro Cultural Maria Antonia e ele me cutucou dizendo da importância dos concretistas que abriram caminho para que, hoje, se pudessem realizar exposições como aquela no país. E eu retruquei que achava aquilo quase acadêmico. E nos dispersamos.
Mas o fato é que aqueles quadrinhos grudados toscamente uns aos outros, alguns toquinhos de madeira pendurados, uma fitinha caindo da parede, aquela coisa mambembe, bem, aquilo era quase nada e eu não conseguia aceitar o que estava vendo. Parecia tudo muito fácil, mal acabado, tudo muito ''quase''.
Claro, o que estava em jogo não teria me pego se sentisse faltar elaboração. Os poucos e modestos objetos espalhados pelas paredes da galeria tornava o ambiente ainda mais suntuoso, davam um ar de ostentação ainda maior do que talvez seja, vazio. Não combinava uma coisa à outra. Por contraste, tudo em volta do trabalho se tornava muito forte, agressivo, pesado demais. Tudo perdia a ingenuidade, a humildade e a fragilidade.
O que aquilo tudo queria dizer, realmente? Melhor, o que é que tinha a me dizer? Mostrar algo como insignificante pode ser uma estratégia de resistência, também: uma arte de renúncias. Renúncia do projeto moderno e contemporâneo ao mesmo tempo, porque, mesmo sendo trabalho de ''parede'', de ''pintura'', o que estava exposto não se aderia à idéia de pureza estética. E, mais irônico, tudo feito com a cor branca, em várias tonalidades.
Súbito, me chegam todos eles, velhos e queridos companheiros que começo a reconhecer: Mallarmé, Schwitters, Malevich, Mondrian, Cage, Décio, Haroldo e Augusto, Paz e por aí vai. O branco sobre branco, o branco da página em branco e um pequeno poema, lapidar: ''nada/ ou quase/ pouco/ o poema/ faz-se'' (Augusto de Campos). Que a academia possa estar à altura dos mestres!
Mas as conexões não terminam aí, nem poderiam porque se a operação estética pode ser comparada à linhagem dos artistas citados, a estratégia certamente pode ser pensada a partir de outras referências. De pronto é possível pensar em Artur Barrio, particularmente nas ''trouxas ensanguentadas'', situação ''ORHHHH'', que foram expostas no MAM do Rio de Janeiro, em 1969. A princípio tão opostos em suas ''qualidades formais'' enquanto um se contamina de sujeira, o outro se contamina de limpeza ambos nos pressionam a perguntar se se trata de arte ou não. Ambos só se sustentam no espaço expositivo, na instituição que os abriga, suspensos pela força da pressão que os agentes de arte impõem à existência de obras, isto é, através do atrito com o sistema de arte, com o mercado e, principalmente, com o público de arte, ávido por entendimento, beleza e participação. A arte não está na matéria da qual é feita, nem no esforço de realizá-la, mas na possibilidade de fazer refletir, de criar pensamento.
A lição aprendida foi a de que nem toda a arte está preocupada em consolar, mas trazer consciência a questões que só a linguagem é capaz de elaborar. Como diria Leminski: ''onde é que estamos que não reconhecemos mais os estranhos?''.
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