ALFABETO VISUAL - Poéticas de ligações trans-estéticas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de novembro de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Acordar de madrugada com uma ligação recebida pelo ''Celular de Naná'' pode ser uma experiência única, já que o servidor de acesso a certas tecnologias está tão à mão e ao mesmo tempo tão distante, que é impossível prever quando o contato será estabelecido.
Diga-se, de passagem, que tal contato é estabelecido a partir de vínculos extra-racionais, trans-perceptivos e além-afetivos, onde a experiência telepática talvez seja a definição mais aproximada do que ocorre quando seres sintonizados no mesmo canal de frequência astral conseguem captar seja imaginando, adivinhando ou lembrando as vibrações cósmicas circulares que conduzem a liberdade e a criatividade para locais onde, aparentemente, poderiam parecer fora da área de transmissão.
Funciona como certas seitas religiosas, filosofias transcendentais ou psicopessoais, que propõem, por exemplo, a concentração de seus adeptos, em um mesmo horário, em vários locais, para que todos atinjam um determinado objetivo. Só que, no caso de receber uma ligação do ''Celular de Naná'', não importa nem o tempo nem o espaço do acontecimento, mas o grau de afetividade envolvido na relação entre as partes. No caso, quanto mais afetuosa, mais forte o sinal de contato.
O aparelho, uma concha do mar, coloca o participador da ação diretamente ligado ao poder mágico do mito de Iemanjá, a rainha do mar, na tradição africana. Ao colocar o orifício da concha em contato com o ouvido, ouve-se a reprodução do barulho das ondas do mar e é de se supor, então, que esse som altere o estado psico-perceptivo de quem faz uso desse objeto, através de dimensões que só a ancestralidade da forma da concha pode responder. Há algo de tão primitivo ali, quanto de inovador, em seu uso.
Com o ''Celular de Naná'' é possível prever as marés, saber se o mar está para peixe, indagar se as ondas estão boas para surfar e receber muitas outras informações que tenham a ver com a praia, o sonho, o lúdico e a fantasia. E, de certa forma, matar uma saudade. Ouvir o som de uma concha do mar é como evocar o longínquo, o distante e o eterno. É conversar com o infinito, sem ter de pagar DDI pela ligação.
Mas acontece que em algum momento a conexão com o ''Celular de Naná'' pode cair e, do mesmo modo como a ligação veio, ir-se. Como essa, que aconteceu na madrugada, enquanto dormia, tornando impossível saber se era parte de um sonho, ou se o sonho era parte da ligação. A recordação, agora, daquele instante, é a de ter pegado a concha que enfeita a mesa perto da cama, no quarto onde estava dormindo, atendendo um chamado de alguém que diz, do outro lado da linha, que tudo não passa da invenção de quem mantém ainda vivo no coração a criança que foi um dia, capaz de brincar até em sonho. E mais, para justificar a telepatia da ocasião: brincar dentro do sonho do outro!
Como sabia que não poderia ir à praia saudar Iemanjá, tudo que pude responder, antes que o contato terminasse foi: alô, mamãe! Tudo bem, aí? Estou com saudades! E pude ouvir, como um murmúrio, ela ainda dizendo: quando é que você vem, hein?
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