Se alguma discussão em arte dá ''pano pra manga'', talvez seja aquela em que se opõe, de um lado, a arte dita erudita e do outro, a chamada arte popular. Uns, defensores incansáveis da experimentação, do progresso, da novidade. Outros, tradicionalistas que fincam o pé no valor da tradição e na raiz, que não podem ser perdidas. Os primeiros, contra a cópia, os segundos, contra a inovação. Acusam esses que aqueles são contra o desenvolvimento da cultura. Acusam aqueles que esses são incompreensíveis às pessoas simples. Uns usando o termo erudito para fazer coisas que nem eles mesmos entendem. Outros achando que podem confundir o tosco, o rudimentar e o malfeito com arte popular.
É possível que uma dona de casa seja inspirada o suficiente para fazer uma pintura que seja admirada pela família, mas, ao expor publicamente seu trabalho, a comparação com o que já existe é inevitável e, da mesma forma que se exige do médico que conheça sua profissão, assim deve, ou deveria acontecer com o artista, também. Isso, independente se um artista faça uma arte para ser ''popular'' ou ''erudita''. Como é que alguém poderia ser jogador de futebol se não conhecesse sequer uma bola de capotão?
O que existe é o fato de que algumas pessoas possuem um repertório cujo conhecimento é adquirido e sistematizado segundo um certo modelo escolar, acadêmico, e outras, cujo conhecimento é adquirido por empirismo, observação, pelos meios por mais precários que sejam disponíveis a seus interesses, por menos letrado que seja o ambiente onde vivam. De qualquer forma ninguém está isento da cultura, por mais precária que seja a forma de transmiti-la.
Um desses casos se reporta à chamada arte na‹f, também conhecida no Brasil como arte primitiva, ou ingênua, dado ao fato que a maioria de seus autores desconhece ou não utiliza as regras e cânones herdados do renascimento, como o uso da perspectiva, de planos sucessivos, proporções aritméticas, mistura intensa de cores, jogo de luz e sombra e volumes.
Mas, se compararmos a arte na‹f com a arte gótica pré-renascentista veremos que ela possui, em vários aspectos, semelhanças à arte da idade média, juntamente com a literatura de cordel, o mamulengo, ou o bumba-meu-boi, cujas ''raízes'' reportam aos poetas trovadores provençais. Seu aspecto popular se dá pelo uso de áreas coloridas de forma chapada, colocação de cores puras e abolição da proporção nas figuras, facilitando assim a narrativa quase sempre como se fosse a ilustração de um ''causo''.
A ''descoberta'' desse tipo especial de arte se dá no início do modernismo, depois que a pintura de Gauguin, assim como Van Gogh e Cézanne destroem a idéia de representação em arte. Quando, até então, a arte tratava de copiar a natureza e ser o mais fiel possível à realidade. Perdida a inocência, a espontaneidade passava a ter valor artístico: o que os loucos, crianças e aborígines faziam agora era de interesse para a arte ''sofisticada'', também. A fantasia exótica, o delírio, o instintivo e o inconsciente estavam liberados ao menos para ser manifestados na arte.
O dramaturgo e crítico de arte Alfred Jarry, autor de ''Pai Ubu'', foi quem cunhou o termo na‹f ou naive, vendo o trabalho do ex-alfandegário e pintor autodidata Henri Rosseau (1844 - 1910), que foi tratado como um gênio por ninguém menos que Guillaume Apollinaire, Robert Delaunay, Matisse, Kandinsky e Pablo Picasso. Suas obras tinham a simplicidade e a ingenuidade características desse estilo que, muito antes de ter sido conceituado, já vinha sendo realizado há séculos em vários países.
No Brasil, a pintora Tarsila do Amaral, correu atrás dessa arte popular que ela conheceu em viagens culturais pelo interior do país, buscando unir tais informações ao conhecimento adquirido em Paris, com a ''arte de vanguarda'', em um momento que a arte brasileira ainda era apenas mera cópia da pintura acadêmica decadente na Europa.
Heitor dos Prazeres, por volta de 1937 e Cardosinho são os primeiros artistas de estilo primitivista cujas obras foram reconhecidas como tendo valor artístico, em nosso país. Além desses, podemos citar Djanira Mota e Silva, José Antonio da Silva (cujas pinturas serviram de cenário para peças de Antunes Filho e capa de disco de Caetano Veloso), Antonio Poteiro e tantos outros.
Saudado como um grande pintor primitivo termo que ele próprio vê com reservas, preferindo ser chamado de autodidata Waldomiro de Deus se encaixa, de qualquer forma, a esse estilo artístico. Suas pinturas de cores fortes, ilustram quase sempre a vida do homem simples da roça, em pequenas cenas do cotidiano, geralmente como uma alegoria. Mostram, por exemplo, personagens como o corno que espera a volta da esposa. O pobre que não tem o que comer. O povo que se escraviza bajulando o político desonesto. E até ratos em forma de gente roubando dinheiro.
Quem quiser conhecer melhor o trabalho desse artista baiano, que tem atelier em São Paulo e em Goiânia, e está na ''estrada'' há décadas, tem até o dia 31 de julho para ver seus trabalhos expostos no Museu de Arte de Londrina, na antiga rodoviária. Afinal, a ''arte popular'' também pode estar em museus que exibem, geralmente, ''arte erudita''. O que vale é a qualidade e a intensidade do trabalho, independente de rótulos.
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