ALFABETO VISUAL - Pensando o uso das tecnologias
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de setembro de 2004
Rubens Pillegi<br> Especial para Folha 2 
Apologia das tecnologias como recurso para as artes parece ter sido a tônica mais frequente nos discursos de artistas e intelectuais, de um modo geral, sobre o uso de computadores e meios eletrônicos. Como se o fim das vanguardas fosse o começo da ERA tecnológica na Arte. Sem dúvida, estão em jogo interesses milionários e a indústria da tecnologia não tem porque reclamar se um novo Deus como e$$e tem servido de muleta para o chamado ''momento contemporâneo''.
Por outro lado, a recusa em participar do jogo tira a autoridade da crítica, como se ''as vantagens'' que a tecnologia eletrônica proporcionam em relação aos ''meios ultrapassados'' de se fazer arte fossem o toque de Midas da moda. Afinal, quem não participa não pode criticar. Esse o paradoxo.
Mas há um outro lado da moeda. Também somos contemporâneos. E, apesar de nos tirarem por marginais, nossas idéias costumam se disseminar e atravessar fronteiras que mentes obtusas insistem em controlar, como se dissessem, o tempo todo: ''já que você não gosta, dê o fora!'' Como se a penetração das idéias fosse uma questão de gosto...
Peço permissão para citar, aqui, um trecho do livro ''O Haras Humano'', de Gabriel Giannatttasio, diante desse mesmo dilema: ''Certa vez, participando de uma mesa redonda, um dos debatedores, dirigindo-se a mim, disse: 'Ok! Você tem todo o direto de recusar, um a um, todos avanços tecnológicos, do arado à conquista do espaço. Mas, então, vá morar na caverna!'... pensei, mas também não é essa lógica que orienta a sociabilidade fundamentalista islâmica?''. Ou seja, não há contradição no fato de criticar e, ao mesmo tempo ''usar a máquina''. Até mesmo porque esse é o único mundo possível. É nele que nos movemos.
Costumam comentar, os apologistas, que toda a vanguarda histórica, desde os dadaístas, passando pelo movimento internacional FLUXUS, Situacionismo, Arte conceitual, etc. teria como fim a arte tecnológica, uma vez que a discussão radical que levavam era a mesma que a arte computacional reinvindica. Seja no fato da desmaterialização e no fim do objeto artístico. Da autoria coletiva. Da participação do espectador na obra. E do processo de criação como experiência estética. Mas o que na superfície se assemelha, podendo, a princípio, levar mais de um ''cérebro pensante'' a assumir o discurso positivado da arte tecnológica, ao final, um desencontro acaba jogando essa semelhança a milhas de distância.
Enquanto os teóricos da arte tecnológica vêem a tecnologia eletrônica como uma tábua de salvação, os participantes das vanguardas históricas sempre foram niilistas. Inclusive em relação à própria arte. Enquanto os primeiros vêem-se como um projeto de futuro que deu certo, os outros viveram a radicalidade do instante. E, além do mais, os apologistas continuam a fazer o discurso do novo, da novidade. Agora não mais como ''contemporaneistas'', mas como velhos modernistas em defesa da ''arte pela arte''.
Como já dizia Torquato Neto, ''desafinar o coro dos contentes'' é o desafio do momento, uma vez que, entre os ''adesistas'' e os ''alienados'', criar um pensamento que modifique esse modelo único de leitura, se faz urgente e necessário. Dito dessa forma, que fique claro que esse ponto de vista não pretende invalidar o que falam certos teóricos, colocando que o avanço tecnológico e a consciência se dão concomitantemente, e que intuição e razão, máquina e homem são partes da mesma ''interface''. Mas deixa em suspenso um ponto de vista que se tornou hegemônico em relação ao uso das tecnologias eletrônicas computacionais. Ou seja, não é que elas prestam ou não prestam, mas a que e a quem elas se prestam, essa a questão.
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