Quem não se lembra em filme de mocinho e bandido, que o índio era sempre
amigo do vilão da história? Cena clássica de faroeste: um índio com penacho
e roupa de franja, manga comprida, com rifle na mão, despencando de uma
fachada de madeira, à frente da câmera. E dança da chuva, então? Dizem que
faziam chover? Hoje, ninguém mais acredita. Nem eles, indígenas. Mas,
loucura ou não, pensar nisto pode levar a conclusões não tão absurdas para
os dias absurdos que hoje vivemos. Porque o equilíbrio ambiental é tão
frágil que uma simples movimentação e vibração a mais nos átomos em nosso
entorno podem mudar a configuração de toda a camada cósmica. Com a
industrialização, com o desprezo pela natureza, a indiferença em face a fome
dos miseráveis, com a crescente poluição, corrupção, etc., isso parece
improvável e até ridículo de ser pensado.

Parece coisa de maluco, mas pensar em ''dança da chuva'' aquela
brincadeirinha que fazíamos quando criança, girando em torno do fogo, com asmãos na boca fazendo uh, uh, uh em tempos de ALCA, Nafta, guerra
imperialista, etc., é, também, questionar toda a colonização, produtos
enlatados e a lavagem cerebral imposta como ''cultura'', para reafirmar, mais
uma vez que, enquanto houver resistência haverá quem ouse fazer a Dança da Chuva. I'm singing and dancing for the rain!

A chuva e a dança lembram outro personagem, o xamã aquele que transita
entre o mundo dos mortos trazendo mensagens aos vivos que é o feiticeiro,
o pajé, o curandeiro, o ''padre'', o ''médico'' da tribo. Com a intervenção da
cultura do branco sobre a cultura do índio, esse equilíbrio instável também
não resistiu. E mesmo os índios já preferem tomar um remédio para aliviar
dor no estômago do que confiar na sabedoria do pajé. Enquanto isso, nos
laboratórios multinacionais, os segredos das ervas e plantas são clonados e
patenteados sem que seus verdadeiros descobridores tenham qualquer
possibilidade de acesso aos dividendos dessas ''pesquisas''.


Voltando, o que é uma mentira? Para que ela serve? Serve para enganar os
outros. Para levar vantagem sobre alguém. Para obter lucros e dividendos.
Antes não havia mentira entre os índios porque não havia interesses
comerciais entre eles. Ninguém precisava levar vantagem sobre ninguém porque não havia o conceito de propriedade. Lendas ancestrais não são mentiras, fazem parte do mito. É outra coisa. Então, quando um xamã promovia a dança da chuva, um ritual de cura, um pedido de ajuda aos deuses para encontrar alimentos, por exemplo, aquilo era uma verdade para toda a tribo, para toda a comunidade. Não existia a desconfiança, a mentira não fazia sentido. Mas à medida que os povos indígenas foram entrando em contato com os brancos e sendo enganados, e suas terras tomadas, então uma enorme dúvida se instalou no meio deles. E o que era pureza se transformou em ingenuidade e ingenuidade em um mal a ser evitado. É engraçado, nas tribos, ser um ''padre'' é sinal de poder e qualquer um pode sê-lo, desde que conte uma história mirabolante de como lhe aconteceu de se tornar um ''vidente''. Com sua fértil imaginação e com a possibilidade de se tornar importante, rapidamente os mais espertos se colocam à disposição para curar outros membros da tribo. E até para brancos eles fazem rezas. Ganham sempre um presente por isso.

A arte de enganar (e de se enganar) é o motor que move o que comumente
chamamos de arte. Não há um índio na foto, há uma representação. Não é uma pessoa: é papel e tinta. Não é um rosto: é uma máscara. No entanto, ela nos desperta a imaginação. Mexe com a nossa curiosidade. Toca nosso sentimento. Já disse Pessoa que ''o poeta é um fingidor''.

E o vilão do cinema ''hollywoodiano'', aquele índio ''de araque'', já nem existe
mais. Hoje ele se veste de John Wayne, no feriado do ''dia dos índios'' e se
entrega à festa do ''peão boiadeiro'', debaixo de muito funk. Mas em algum
lugar, pode ter certeza, alguém deve estar plantado dúvidas no solo onde a
certeza absoluta é a verdade imposta. Chova ou faça sol.

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