ALFABETO VISUAL - Onde a revolução?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de setembro de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Valor de palavra Houve época em que, não fosse revolucionário, seria
guilhotinado. Passaram-se séculos, mas, pelo menos no meio intelectual, não
fosse revolucionário, era reacionário, pelego, pequeno burguês, pária. Como
isso mudou... Hoje em dia, falar que é revolucionário é o mesmo que se
auto-intitular bobo, palhaço, ingênuo. Como as palavras perdem seu sentido!
Embora a palavra conote todo um ideal romântico, alguém que pretenda ser
revolucionário, ou que se diga um deles, não vai querer mudar só a cor do
cabelo como um gesto radical. Vai ter é que lutar para mudar a visão geral
de mundo das pessoas, o que não é nenhuma brincadeira! E olha que tem coisa:
vai, pelo menos, desde a roupa que se usa à alimentação diária. Das formas
de relacionamento amoroso ao avanço tecnológico. Do desenvolvimento
econômico ao uso das palvras, etc. Mas é bom lembrar Einstein, que disse: ''é
mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito''.
Idéias e ideais A revolução não é, ou não parecia ser, em algum momento,
tampouco, apenas social. Ou comportamental. É também uma questão de
linguagem. O criador da física quântica Werner Heisenberg, dizia que, para
uma nova visão de mundo, era preciso criar, também, uma nova forma de
expressar esse mundo.
Uma vez, no Rio, em 2002, por um acaso, vi um projeto da artista Graziela
Kunsh e fiquei fascinado. O que havia ali jamais tinha passado pela minha
cabeça como possibilidade de ser arte e, no entanto, aquilo abria um
dispositivo, um mecanismo de ação que não pensava poder lançar mão para ser
usado em Arte. Um projeto para um jogo de futebol entre os moradores do
morro dos Prazeres um bairro acima de Santa Tereza contra o pessoal de
arte: artistas, professores e críticos. Valendo cerveja, churrasco e o
conserto do alambrado do campo de futebol do bairro.
Antes disso, recordo o que mais me chamou atenção foi o ''projeto cão
mulato'', de Edson Barrus, unindo arte e tecnologia. Ele desenvolveu um
projeto para a criação, por códigos genéticos, do ''puro vira-latas'', como
uma crítica do aperfeiçoamento genético proposto pelas pesquisas
científicas. A arte, a partir dali, pelo menos para mim, independia do
suporte material tradicional e até dos conceitos formatados no universo da
arte. Que era possível ir além do que já era esperado dos artistas, fosse em
termos de técnica, fosse em termos de suportes. À pintura sobre tela,
definitivamente, não sobrava mais espaço de sedução (ou de revolução)!
Cruzando fronteiras Em 2000, fazendo uma oficina de artes visuais, com Newton Goto, foi
realizado o trabalho ''Fronteiras'', na cidade de Antonina, no litoral
paranaense. O que tinha de revolucionário ali era a união de pessoas que
estavam no mesmo caminho, procurando pelas mesmas coisas e que foram unidas
por interesses comuns. Cada um tinha o que acrescentar na pesquisa, ou, ao
caminho que o outro estava desvendando naquele momento. As ruas da cidade
foram tomadas sem que soubéssemos que ali estava sendo concebida uma
aventura que veio a se desdobrar depois como a questão da formação de grupos
de ação, performances, intervenções urbanas, relação arte e vida, arte e
não-arte, etc.
Não que se desconhecesse outros trabalhos destes em artes visuais. Apenas
que, a partir daquele ponto, pudemos estabelecer uma direção, na prática,
sobre o trabalho que desenvolvíamos. E que havia outras pessoas ''antenadas''
já produzindo as mesmas coisas. Embora isso tivesse sido uma experiência
muito pessoal e relativa, no fim das contas, é a partir de nossas
experiências que podemos falar em ''visão de mundo''. Não tem outro jeito!
Depois das utopias, a utopia. O que sobra de revolução e utopia depois que
as utopias acabaram, talvez seja pelo paradoxo, pelo seu próprio avesso
a utopia e a revolução. Até porque a revolução começa onde termina a
tentativa de se consertar algo que não tem conserto, como todo um sistema de
valores. Mudar a cor do cabelo, por exemplo, não vai fazer o mundo mudar,
mas talvez seja mais frutífero do que se acomodar sobre as críticas, para
justificar esses momentos áridos às utopias. E, se o sonho acabou, não seria
a hora de acabar o cinismo e o maquiavelismo, também?
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