''Antes de se iniciar no Budismo, o discípulo vê o céu e a montanha como céu e montanha. Quando inicia a prática budista, nem o céu nem a montanha são mais os mesmos. E, finalmente, o céu volta a ser céu e a montanha, montanha, depois de se ter tornado um budista.'' (Ditado oriental)



Quadro 1 - mulheres nuas pintadas

Dias atrás, vendo a exposição de pinturas do artista Fred Carvalho, do Rio de Janeiro, logo percebi que estava diante de mais uma demonstração de habilidade técnica que o leigo chama de ''bonito''. Quer dizer, tudo o que está dentro do padrão do gosto comum, como a cor, a representação figurativa de imagens, a gestualidade do pincel escorrendo pela tela, aquele expressionismo com um toque moderninho, com parentescos bem próximos de pintores consagrados, como Lucien Freud (é, neto do psicanalista) e, bem, vamos admitir ao final das contas: uma senhora pintura! Mas, e daí? Perguntei-me sobre o significado daquilo.
Eram imagens de mulheres gordas e velhas fazendo caras, bocas e poses sensuais que, em princípio, não queriam dizer nada mais do que aquilo que estampavam. Será que o artista estava a fim de chocar, fazendo uma imagem boa de figuras feias? Fui informado que se tratava de fotos que o artista tirava de revistas pornográficas e que, claro, aquelas mulheres eram prostitutas. Bem, há gosto e fetiche para tudo!



Quadro 2 - A terra é redonda

Saber que a Terra é redonda não modificou a superfície do planeta, nem tirou as estrelas do lugar. Mas nunca mais fomos os mesmos que éramos antes de saber disso.
Às vezes um invento, uma idéia, por menor que pareça ser, em termos de transformação, pode modificar muito mais o sentido das coisas do que a construção de uma usina hidroelétrica. Mudar os modos de ver o mundo, os padrões com que nos acostumamos a dar valor às coisas, é muito mais revolucionário do que uma revolução em que as pessoas nem sabem por que estão morrendo. Que dirá, então, perceber o perfume de uma flor. Ou, até, aprender a ser gentil.



Quadro 3 - O gorila

O gorila me olha tão estranhamente e de modo tão primal quanto se pode olhar uma obra de arte contemporânea, que não nos revela, pior, ela nos indaga sobre quem questiona quem. Lembro-me dessa pintura de Danilo Villa, ano passado, na Casa de Cultura da UEL, que, além do gorila, se lia a palavra Braque no mesmo quadro. Para quem não sabe, Braque foi o criador do Cubismo. Junto com Picasso.
Baseado apenas na imagem vista - tais como as pinturas de Fred Carvalho - poderia se dizer que se tratam de boas representações. Mas por que é que Fred não foi pintar as garotas da Playboy e Danilo, macaquinhos pulando alegremente na floresta, ao invés de um gorila brutamontes?
Sem dúvida, tanto a pintura de um, quanto de outro, ao mesmo tempo em que nos prendem à imagem dada, nos remetem a outras situações. Que é a do nascimento da imagem. Ou melhor, do nascimento da idéia da imagem. Da formação do olhar depois que se descobriu que o mundo era redondo, só para ficar nos exemplos citados. Isso é isso que está diante de nós. Mas isso é um acúmulo de relações, de histórias que já estão no quadro branco, antes de ser pintado. Não é nada fácil pegar uma tela e dizer ''agora vou pintar um quadro'', como quem estivesse inventando a roda! O último que conseguiu ser original fazendo isso foi o pintor Magritte, ao desenhar um cachimbo e dar o título ao quadro de ''isso não é um cachimbo''.




Estamos em obras - pintura inacabada

Aproveitando que ainda estamos subindo a montanha e descobrindo que a terra é redonda, deixarei para continuar o assunto a semana que vem. Afinal, como na pintura, o tempo pode se alongar, dando espaço a mais vida e idéias. E como o assunto é sobre isso mesmo e já vem de uma conversa começada, até a semana que vem!

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