ALFABETO VISUAL - O vale-tudo na estética contemporânea
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Uma das maiores objeções da crítica sobre a arte contemporânea é a de que ela se tornou uma espécie de ''vale-tudo'' em que as antigas regras e conceitos já não são mais suficientes para entender o que os artistas querem dizer com seus trabalhos. Não é mais nem o fato de que se possa chegar a uma abertura de exposição e nada encontrar dentro da galeria e a isso se chamar o ''museu do vazio'', como fez Yves Klein, há mais ou menos 40 anos. Nem de embalar as próprias fezes em latinhas e dar a isso o nome de ''merda de artista'', como fez Piero Manzoni, também nos idos da década de 60. Mas porque todo o conceito sobre o que vem a ser ''obra de arte'' e até mesmo ''artista'' está tomando um corpo em que todas as relações que formam o chamado ''circuito artístico'' acabam perdendo também seus referenciais. E o cargo de quem está no poder começa a ser ameaçado.
Artista faz, crítico pensa, curador elege, setor educativo explica. Enquanto a fórmula vinha sendo repetida dentro dessa norma, os artistas podiam fazer o que bem entendessem. Como em uma linha de montagem, cada um tinha sua funcionalidade dentro do sistema. Mas o artista começou a pensar, a dizer, a interferir e, desde então, cada vez mais, a regra tem sido questionada.
De vez em quando surge uma temporada de críticos que dizem o que é arte. Depois, de curadores. Criam-se certos modismos, coisas vistas, requentadas para ''acalmar'' mercados, nichos, para mostrar a ''evolução'' da arte. Mas, pelo menos no Brasil, depois de Hélio Oiticica, não há nenhum tipo de clima que se possa dizer estável. Principalmente porque aqui estabilidade não é o nosso forte, assim como o ''circuito artístico'' é quase - este sim - uma abstração.
Em um texto intitulado ''cérebro cremoso ao cair da tarde'', Ricardo Basbaum fala de uma experiência coletiva de artistas e um crítico, que em 1987, deflagraram várias ações artísticas no Rio de Janeiro, entre as quais, um desafio ao curador e galerista italiano Achille Bonito Oliva - considerado na época como o porta-voz da renovação da pintura como proposta de saída para a arte - falando de um movimento conhecido como ''Transvanguarda'', em uma palestra naquela cidade. Pois bem, quase no final do texto, Basbaum constata: ''Estranho, curioso, o processo do trabalho coletivo: pessoas de diferentes percursos encontram-se e realizam uma série de atividades para depois, aos poucos, seguirem seus caminhos - e o grupo se desfaz, nunca se percebe bem como''. É assim, diria o poeta Paulo Leminski, que pensava que a luta da vanguarda artística se dava mais como uma guerrilha, onde cada um luta como pode e sabe, do que uma guerra organizada segundo uma hierarquia de posições e comandos superiores.
Os agrupamentos se unem - em determinados momentos - e depois se dissolvem. Os guerrilheiros, os anjos de luz, os artistas, ou que nome lá venham ter, percebem isso e, ao invés de ir contra esse fato, começam a usar essa potência como experiência em seus trabalhos. O que leva à desorientação dos críticos, que não conseguem mais acompanhar (domesticar) o tipo de produção e consequente colocação do produto artístico.
No colóquio ''Resistência'', realizado no final do ano passado, também no Rio de Janeiro - a partir de uma mesa chamada ''Com Amigo Não Se Blefa'' - foi colocado que, nessas questões da arte contemporânea, vale-tudo, sim. Mas entre amigos, entre camaradas, entre cúmplices. Inclusive o plágio, a indefinição autoral sobre quem fez ou faz o quê e como, desde que não seja visar lucro e mais-valia sobre o trabalho alheio. E que as instituições precisam se tornar mais flexíveis para abrigar os processos, fluxos e experiências que hoje já não cabem mais no formato estático antigo de exposição de obras com temas curatorias, somente.
Sobre isso, aliás há um site do grupo italiano Wu Ming, que em chinês quer dizer Sem Nome, discutindo justamente essa questão sobre direitos autorais e pirataria, cujo endereço na internet é: http://www.wumingfoundation.com/italiano/wmportugues.html . E coloca que o ''copyleft'' - uma espécie de RAP, de Hip Hop da escrita e do uso das imagens alheias - em contraposição ao ''copyright'' e à pirataria é um modelo que pode ser adotado entre cúmplices do mundo inteiro. Vale tudo sim, mas é preciso aprender a saber fazer valer.


