ALFABETO VISUAL - O trabalho como forma poética
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de maio de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Crise e oportunidades Diz-se que o ponto mais alto de um determinado fenômeno é também o anúncio de sua decadência. O sol a pino tende ao ocaso; o auge de uma civilização é também o prenúncio de sua derrocada; a hegemonia de uma idéia sobre outras provoca dissidências e alimenta um ciclo como o dia e a noite, a vida e a morte e, depois, o renascimento e assim por diante.
Por isso é preciso saber aproveitar o lado favorável do ciclo de movimento contínuo para, quando os tempos difíceis chegarem, estejamos preparados para o pior. Preparados como nos ensina o I-Ching e como fez José, aconselhando o faraó a conservar o alimento para os duros tempos de seca. E, preparados, também, para aprender com as crises, a caminhar pelas dificuldades, ao invés de ficar preso a elas, como em um ponto final.
Lógica do problema Vivemos, nesse sentido, uma época ambígua. De um lado, temos acesso a todo tipo de informação. De outro, cada vez mais essas informações são padronizadas dentro de um mesmo discurso hegemônico de poder.
A questão do trabalho, por exemplo - que está completamente vinculada ao sistema produtivo - precisa ser questionada desde o seu conceito, uma vez que, para a física, trabalho é a energia gasta por um corpo para se movimentar de um ponto a outro. E não como quer a ortodoxia econômica, que vê no trabalho o resultado do investimento de capital.
O problema dessa lógica, até agora, é que ela não encontrou soluções para a manutenção dos recursos naturais e nem favorece a pesquisa científica para outros fins senão servir ao mercado.
É preciso usar a criatividade e a imaginação como instrumento de transformação e, como dizia Oswald de Andrade, ''ver com olhos livres''.
Poética da existência Criar uma dimensão existencial que vá além da relação funcional e formal imposta como modelo, pode parecer uma utopia, mas, concretamente, muita coisa tem sido feita e experimentada na direção de transformar a vida em uma forma poética de existência. Se não livre dessa lógica perversa, ao menos tirando partido dessa situação.
E, em arte, isso tem sido cada vez mais frequente. A ponto de artistas (e não artistas, exatamente) desejarem fazer do percurso de suas existências uma verdadeira obra de arte. Isto é, não é só o produto artístico - o objeto - que pode ser considerado arte, mas o próprio corpo, a mente, o pensamento e a ação no dia-a-dia. Seja deslocando conceitos, seja inventando modos de tornar o existir consciente e pleno. Refletindo, respirando.
Ação afirmativa Não é uma questão simplista de negar por negar as estruturas que nos sustentam. Ou para se chegar a algo como um blefe, uma piada, um sarcasmo, ou mesmo perda ou desistência de nada, como quem se conforma na derrota. Ao contrário, o X da questão é inventar uma relação onde fazer e prazer estejam ética e esteticamente unidos. Porque as ações nessa direção precisam ser colocadas de maneira afirmativa. E não reativa. A favor de algo, e não contra seja lá o que for.
Não é que todo mundo vai aprender com as dificuldades. E nem que todos irão querer ver-se livres de uma vida robotizada, automatizada. Mas, na medida em que o conhecimento se torne acessível a um número maior de pessoas, mais aliados se juntarão para não deixar ver o planeta entregue nas mãos da ''lógica do mercado de consumo'', como se isso fosse, simplesmente, inevitável. Ponto final? ...


