Lançar mão de uma imagem perpassada por cenas de memória que vão se desfiando no tempo, se fiando no espaço. Assuntos de uma escrita inscrita à sangue, no coração da palavra pulsante. Nas fibras de uma idéia em movimento. Tomar como caminho a direção de uma película como o filme ''O Livro de Cabeceira'', de Peter Grenaway, em que as peles humanas são tatuadas por um alfabeto de redenção, vingança, morte e poesia.
Ou na letra 'L' bordada nos intestinos do escritor Yukio Mishima com a espada do samurai, em uma cerimônia de defesa da honra o Sepuku dentro do quartel general do exército japonês, invadido por ele e seus seguidores fanáticos que queriam o retorno à tradição.
Occan é o primeiro monstro intersemiótico da literatura (Leminski O Catatau). À medida que as palavras se aproximam ou se afastam dele, no texto, vão perdendo a lógica. Devoradas por esse ''ser'' enigmático, o texto salta de um lado para outro dentro de sua estrutura interna de romance: um vírus de linguagem.
O texto como ação. A ação como texto.
Ritmo, cadência, intervalos de tempos contínuos, o uso de silêncio e ruídos, etc. transformando a palavra não só em veículo de informação, em meio de comunicação, mas em música, em dança, em artes gráficas, visuais: ver/ler, mover-se.
O VerbiVocoVisual aprendido e apreendido desde os concretos. E suas implicações no uso das fontes, das cores das letras, da tipologia, o grafismo alterado, re-significado. A palavra, a letra, o signo dançando no espaço: poemóbiles, poemobjetos. Poesia sem palavras. Imagens que falam por si. Tudo isso se (de)compondo a partir de onde? De quando? De quem? ... uma linguagem atravessando categorias é sempre e só (e tanto) mais uma marca, um sinal de vida que pulsa, pisca e passa, como quem atravessa o semáforo. Ou é banhado madrugada adentro pela luz vermelha de um carro de polícia, cruzando a avenida no sinal fechado.
Mas o fato é que ''isto não é um cachimbo'' (lembrando Magritte através de Foucault), em que o desenho de um cachimbo desdiz o texto que nega a representação, ao mesmo tempo em que acusa a presença da imagem. Isso é o que é: ''as palavras e as coisas'' em constante deslizar, chocar, entrecruzar. E o único consolo de apreensão do ''agora'', ''já passou'' (Arnaldo Antunes).
O caligrama, o ideograma, os hieróglifos, as incisões, as inscrições, os jogos entre palavras, imagens e ações onde eu ''só vendo a vista'' (Marcos Chaves) ''frases feitas'' (Edson Barrus): VI-VER-DE-AR-TE. O grafismo, os fonemas, os palíndromos, as aliterações, os anagramas: IRACEMA/AMERICA. O grafite nas cidades, as marcas movediças das sombras nas paredes: um mapa/alfabeto de sons, cheiros, texturas, sabores e sensações de se ler/ver com os sentidos da percepção tocados pela alma. O contrário de anestesia.
Palavras em vermelho, como o sangue usado nas paredes das cavernas pré-históricas: animais que eram capturados não só em sua forma aparente, mas em seu ânima. Uma imagem/escritura = gesto/vestígio, apontada para a teoria dos signos que se fazem informação, mensagem, comunicação. E, também, poética de encontros e passagens para dimensões que só ao espírito é permitido habitar.
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