ALFABETO VISUAL - O tempo na pintura
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de maio de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Para mim, o máximo que se podia chegar, em pintura, era no abstracionismo colorista de um artista como Arcângelo Ianelli, em que uma cor se dá depois de horas que a gente fica diante de um quadro. Por exemplo, a tela toda negra e, de repente, depois que a retina se acostuma àquela vibração, aparece em algum canto da tela um azul púrpura, muito tímido. Eis a revelação! O tempo da pintura como um tempo outro do tempo industrial, tecnológico, que vivemos. Desse ''time is money'', que transformou a vida em correria, roubando-nos o prazer da contemplação.
Vários críticos, falando sobre a pintura de (outro artista nacional) Paulo Pasta, recorriam à idéia de que era preciso entrar em um outro tempo para apreender as qualidades pictóricas ali contidas. Para perceber a intenção do artista como alguém capaz de ''alongar'' o tempo.
De qualquer forma, essa discussão não vem de hoje. Tal debate ocorre, pelo menos, desde os anos 40. E tem na pintura de artistas-pintores como o ''expressionista abstrato'' Mark Rothko (1903-1970), dos EUA, uma forma acabada de se pensar tal questão. Suas telas, gigantescas, invertem a noção do espectador sobre a pintura. São as cores que se derramam sobre os olhos e o corpo de quem as vê. E não ao contrário. Elas são feitas para banhar o ambiente de luz. Sacralizando o espaço de entorno entre o observador e a arte, à sua frente. Não custa lembrar o preço que um de seus quadros foi vendido, dias atrás: 72,8 milhões de dólares! Mas, bem, do que estávamos falando, mesmo?
Do outro lado, eram as charadas visuais, as performances intelectuais, o hermetismo de uma ''monalisa com bigode'' como a que o artista Marcel Duchamp fez, em 1919, dando um curto circuito em todo esse sentimentalismo ''retiniano'' da cor, como ele dizia - retiniano - falando da pintura.
Então, ainda que se paguem milhões de dólares por uma tela pintada, qual era o interesse que a pintura poderia despertar, desde que a arte descobriu que poderia ser o que quisesse, sem depender de nenhum meio ou material específico, como a pintura precisa da tinta? O que restaria à pintura além do desenvolvimento de técnica?
Com o movimento da Arte Conceitual, por volta de 1970, tudo piorou para o lado da pintura. Porque, a partir daí o artista passou a atuar em um campo muito ampliado de ação e pintar, realmente, ou era para os teimosos, ou para os muito convictos do faziam. Ou os que vendiam, que tinham mercado.
E isso foi acontecer logo com a pintura. A pintura que se transformou em arte pelas mãos de geniais artistas como Leonardo da Vinci, que nos ensinou que ela, a pintura, era ''uma cosa mentale''. Quero dizer, a arte conceitual tirou da pintura a coisa mental e a tomou para si. E fez dela puro jogo de formas. De pesquisa técnica. Empurrando-a para o artesanato, novamente. Afinal, a fotografia pode representar muito melhor qualquer realidade. E pensar a bidimensionalidade ficou cada vez mais difícil, em um universo tão mapeado quanto o das artes.
Pois bem, foi decretada o fim da pintura. Sua morte. Mas ela não morreu, como atestam os pintores em cena. Porque pensamento e sentimento, prazer e razão não são opostos, nem excludentes. E é possível pensar o tempo da pintura não só com os olhos, mas, também, com as idéias, em um período de amadurecimento colocado entre a charada visual e a contemplação pura e simples da cor. Uma inteligência plástica além do mero jogo dicotômico entre bem e mal, certo ou errado, preto ou branco. Uma pintura que possa estar dois lados, ao mesmo tempo. Sem fazer opção por nenhum deles: nem conceitual, nem, simplesmente - como se diz - bela, virtuosa, ''bem-acabada''.
(continua na próxima semana)


