ALFABETO VISUAL - O sobrenatural como matéria de especulação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de março de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Realidade paralela sempre foi um prato cheio para a literatura, o cinema e para os quadrinhos de ficção científica. E, também, como parte das religiões onde os milagres tornam a fé o fator em que passamos a acreditar na possibilidade de transcendência. Ou, ao menos, na possibilidade de um mundo melhor, seja aqui nesse planeta ou em outra dimensão, espiritual ou material.
Pequenos sinais como um encontro com alguém de quem se está falando (como se pensar na pessoa fizesse com que ela aparecesse), de repente, como do nada, já pode ser considerado como demonstração de alguma força oculta atuando à nossa revelia, às vezes a favor, às vezes contra o que estamos esperando em determinado momento.
Outras situações fantásticas também podem ocorrer pelo menos na crença de muita gente como um fenômeno inexplicável. Por exemplo, um poltergeist, um espírito que incorpora em alguém, objetos que parecem ter vida própria, como lâmpadas que se acendem e se apagam sem que ninguém tenha feito nenhum movimento para tal, objetos que saem de seus lugares por conta própria, caem sozinhos, etc., como naqueles contos infantis que, quando a criança dorme, os brinquedos ganham vida própria.
Mas tudo isso que parece sem explicação ainda é pouco perto do que ouvimos falar ou assistimos no cinema e na tv, como atravessar paredes, ficar invisível, levitar, viajar com o espírito sem tirar o corpo do lugar, ou conversar com os mortos, como se não existisse um fim, mas só uma passagem entre corpo e alma, matéria e energia.
Segundo a física contemporânea, realmente essas diferenças não existem. Basta pensar na pesquisa sobre os campos de força, onde matéria e energia fazem parte de um mesmo sistema integrado. Dos elétrons que se assumem ora como partículas, ora como ondas. Ou a teoria dos spins, que, uma vez dominado suas direções, é possível retirar energia até de uma gota d'água capaz de movimentar qualquer tipo de motor.
Pensar, ir atrás, tentar realizar esse tipo de atividade que tem como base a crença, muito mais do que qualquer comprovação científica, ou até porque a ciência não pode explicá-las pode não ser nada além do que uma fuga da realidade, um escape, como usar drogas para fugir de determinados problemas. Agora, para um praticante de alguma seita ou religião que usa justamente a droga como parte de seu ritual, essa fuga da realidade é a sua própria realidade. É, aliás, aquilo que se busca, para estar mais perto de Deus, deuses, ou dos espíritos, ou de algum tipo de comunhão.
A fenomenologia diz que algo pensado e imaginado já existe, pelo menos no plano mental, no plano das idéias. Que, de qualquer forma, aquilo pensado e imaginado já se torna uma qualidade, também, da matéria. Seja como influência no pensar, ou busca por algo além do que estamos acostumados a reconhecer como factível.
De todo modo, embora esse campo dos fenômenos paranormais tenha sido pouco explorado, não podemos dizer tratar-se de algo novo, surgido como um movimento, um transcendentarismo de vanguarda. Até porque, artistas como Yves Klein, com seu trabalho de fazer levitar uma bolinha no espaço, em 1962, e Robert Barry, com a performance ''Peça Telepática'', de 1969, já pensavam sobre esse lugar do sobrenatural, que fascina e assombra o homem, desde que ele se deparou com o fogo, pela primeira vez.
Talvez, realmente, essa história não tenha mesmo um ponto final, afinal, o sobrenatural quando realizável, já não é mais sobrenatural, mas somente uma poesia que se perde ao ser nomeada, ou um truque de circo, criado por algum mágico genial, que nos rouba momentaneamente a razão. Mesmo que tudo faça parte de um mistério na qual tudo e todos estão envolvidos.
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