ALFABETO VISUAL - O Grande Nada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de julho de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Andando de um lado para outro, tentando chegar a algo que pudesse ser dito sobre arte, vida, sociedade e mundo, não consegui chegar a termo nenhum, nem mesmo a um conceito original, nem mesmo me animar com algo que me levasse a um pensamento que fosse preciso a ponto de poder me animar com alguma idéia. Só o nada diante de mim. E, pior, o nada dito pelos outros, o nada copiado, o nada não esquecido na gaveta do armário diria, um nada empoeirado.
Cheguei a conclusão, então, que, de pensar, chega-se ao Nada e, quanto mais sabemos disso, menos nada temos de nós mesmos para sabê-lo. O que importa saber o que alguém disse sobre isso ou aquilo? Principalmente saber sobre a origem, o fim, ou o resumo de todas as coisas? Quando pensamos nisso, já não somos nós que estamos chegando a uma conclusão, mas tão somente uma conclusão do outro que nós nos apropriamos como se nossa fosse.
Pensei que a sabedoria do mundo é dada até nas mais insignificantes das coisas, como no vôo de uma borboleta, em uma planta que trata alguma doença, no colorido do arco-íris, em um pensamento que escapa. A chuva, o vento, o frio, todos eles sabem melhor que fazer do que qualquer um de nós. Mais isso também já foi dito, me lembro bem.
Acho que o homem cria problemas para sair-se do tédio. Só pode ser. A vida sem problemas é muito chata. Já pensou se tudo fosse perfeito? Que chato não seria. Se tudo estivesse nos padrões, como seria? Como e para quem iríamos reclamar? Como viver em um mundo onde não há necessidade de absolutamente nada? Um tédio, certamente! Talvez tenha sido por isso que inventaram a arte, a filosofia, a ciência e, principalmente a religião. Para que o ser humano pudesse acreditar em alguma coisa. Mas elas também são ilusão, não passam de representação de outra coisa, de algo, dos anseios do espírito. O que fazer, então?
Como já disseram que ''de pensar morreu um burro'', resolvi recolher frases prontas para, se não resolver a grande questão sobre o Nada e suas consequências, ao menos, ilustrar bem nosso caso. Lá vai:
''O silêncio é grávido de sons'' John Cage
''A inércia é o princípio da ação'' lei da física
''O silêncio é o começo do papo'' Arnaldo Antunes
''Um dia pra vadiar'' Vinícius de Moraes
''Eu vim aqui foi pra vadiar'' música de capoeira
''nada/ou quase/ pouco/ o poema/ faz-se" Augusto de Campos
''No vazio cabe tudo'' folheto apócrifo
''Nada é nada. tudo é tudo'' anônimo
''O nada é tudo'' Marcão Kareca
''Tudo é nada'' niilista de plantão
''Nada melhor do que não fazer nada'' Rita Lee
''É sempre bom lembrar, um copo vazio, está cheio de ar'' Chico Buarque e G.
Gil
''Nada, nada, nada, nada / nada, nada, nada, nada / nada, nada, nada, nada / do que eu pesava encontrar'' Gilberto Gil


