ALFABETO VISUAL - O espírito do instante
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de junho de 2004
Rubens Pileggi Sá<br>Especial para a Folha 2 
Uma visão de mundo Ver as coisas como elas são é um grande desafio para nosso modo de perceber a vida, sempre tentando compreender tudo pela lógica determinista de controle e apego ao que não se pode prender, à brevidade do instante, que passa. Um flagrante que só uma súbita iluminação um click de máquina fotográfica, um desenho do vento passando sobre a roupa de uma gueixa japonesa, uma borboleta que pousa, ou um instante que voa pode fazer aparecer.
Aceitar a permanência da impermanência; desapegar-se do ego; permitir que o silêncio e o vazio, o imprevisto e o acaso façam parte de nosso mundo, parece tarefa árdua, mas, como ensina o zen budismo, ''a vida foge''.
Influências Essa doutrina, que veio do Japão e que pode ser comparada de certa forma ao niilismo ocidental, ao movimento anti-artístico Dadá, do começo do século 20, à filosofia existencialista e até à física quântica no que diz respeito ao principio da incerteza há muito vem influenciando a nós, ocidentais.
Basta pensar na admiração que os artistas impressionistas já possuíam pelas gravuras japonesas, há pelo menos 150 anos. Ou nas pinturas de Van Gogh, particularmente em relação ao uso das cores e na composição e disposição dos elementos em seus quadros.
Na música contemporânea só para citar um exemplo John Cage introduziu o silêncio na música, alterando todo o modo de perceber os sons que até então estávamos acostumados a ouvir. Enfim, não só as influências ocidentais mudaram o oriente, como também aquela visão particular de mundo, trouxe-nos importantes mudanças que alteraram e continuam alterando nossa percepção de mundo. Enfim, estamos falando de uma estética impregnada por atitudes diante da vida, em que sons e silêncios, ruídos e harmonias se fundem no espírito da criação.
Florescimento da cultura O que dizer, então, dos poemas mínimos, de três versos curtos, chamados hai-kais, que condensam significações e sentimentos máximos? Enquanto o ex-samurai Matsuó Bashô atravessava o Japão (1689) de ponta a ponta, levando e fazendo hai-kai, amigos e discípulos, o país vivia seu florescimento cultural, em que várias expressões artísticas e filosóficas se desenvolveram. Foi a época conhecida como período Edo, iniciado em 1603, quando o Japão se fechou para o estrangeiro, mantendo-se isolado por séculos. Foi por essa época que surgiu um tipo de gravura, feita a partir de placas de madeira, chamadas de ukiyo-ê, que usam o vazio da página como parte da composição, com cenas do cotidiano das pessoas em suas rotinas, retratos de gueixas, personagens do kabuki (tipo de teatro popular), as flores, os pássaros, os animais e as fantásticas paisagens, muitas delas mostrando o venerável e imponente Monte Fuji. É a partir de gravuras como essas que sentimos como ''a vida foge''. É na apreciação de uma gravura que mostra algo característico de uma certa estação do ano, que muitas vezes percebemos o estado de espírito, ou, como dizemos nós ocidentais, a expressão do sentimento de seu autor. Tudo muito delicado, sutil e primoroso, chegando ao preciosismo de ser usado, em uma mesma imagem, até 40 matrizes!
Gravuras no Museu Para quem quiser conhecer um pouco desse trabalho, o Museu de Arte de Londrina (antiga rodoviária) está apresentando, até o dia 07 de julho, a exposição de xilogravuras ''Mundo Flutuante'', mostrando o trabalho de 9 artistas daquele período. Um programa para quem tem os ''olhos livres'' para captar ''a vida que foge''.
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