A questão do corpo é a própria questão do tempo. E o que é o tempo nesses termos em que estamos querendo nos distinguir, ou seja, perpassado pelo que se convencionou chamar-se arte? Já que passado, futuro e presente se superpõem em camadas indistintas. Sim, ainda que por representação. Foi essa a grande questão do cubismo: trazer à frente todas as faces do objeto representado.
Como já se falava na física: simultaneidades.
O tempo como a quarta dimensão do espaço: a-cronos. Que é também música sem ritmo, melodia ou harmonia. Arte sem arte. Desde que Nietszche propôs a morte de Deus - quando seu ''Zaratrusta'' chega a feira, depois de anos meditando e compreende que os homens de sua época O mataram - nada mais parece deixar de sucumbir à tentação de Tanathos. Depois da morte do Pai, o sexo com a mãe (Freud: conceito edipiano), depois de Dada. Da morte da arte, da morte da história, o que mais falta matar? Somente com o suicídio ainda nos é permitido sonhar: ''... primeiro assassine a IDÉIA exploda o monumento dentro de nós - & então, talvez... o equilíbrio do poder se inverterá. Quando o último tira em nosso cérebro for assassinado pelo último desejo não satisfeito - talvez até mesmo a paisagem ao nosso redor comece a mudar... '' (Hakim Bey - CAOS - terrorismo poético e outros crimes exemplares).
''O corpo é obsoleto'' - diz Sterlac, um artista australiano que utiliza instrumentos médicos, próteses, robótica, sistemas de realidade virtuais e internet para explorar interfaces íntimas e involuntárias com o corpo. Tendo feito mais de 25 suspensões com ganchos presos ao corpo, colocado um terceiro braço ao corpo, filmado suas entranhas, inventado uma orelha adicional para ouvir RealAudio, etc. sua visão parece-nos ser a de que, no momento em que a ciência pode manipular realidades como mutações genéticas, clones, alterar cores, formas e texturas da pele, ou fazer nascer uma orelha humana nas costas de um rato, por exemplo, o corpo passa a ser mera massa inerte, carcaça a ser carregada por um dispositivo qualquer, artificial ou não.
Talvez o corpo ainda nem exista, ainda não nasceu. Sua dimensão está além das possibilidades de sua manipulação. Diante da contemplação de um corpo qualquer: um cara musculoso, uma gostosona qualquer. Diante do uso do corpo por um bailarino, um ator, um esportista, por exemplo, tudo o que podemos reter é a contemplação, algo que nos foge, algo passageiro que escorre, líquido.
Mas também é possível pensar que o corpo é, ele também, parte de um grande fluxo, mutável, mutante. Ele é seu próprio discurso. Seu lugar é sempre reinventado, ressignificado: seja em uma pintura do século XVII, em que o artista representa um grupo de médicos dissecando um cadáver (Rembrandt: ''Lição de Anatomia''); seja quando o corpo representado é a própria tela pintada (modernismo); seja quando o artista torna-se a própria arte (além-Pollock); seja quando o corpo só tem existência na medida em que a relação com o objeto da arte seja participativa (Oiticica: Parangolé); seja quando ele se torna um conceito (arte como idéia de arte); uma ausência que o torna ainda mais presente; ou seja quando ele se perde de si e se torna parte do cotidiano, do próprio corpo coletivo, agora tomado como corpo a ser desenvolvido, a se fortalecer em outras instâncias que podem se chamar arte, ativismo, ou aquilo que está diante do seu nariz é você quem inventa o que é. Um corpo além do ego, um after-ego.

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