Uma das palavras mais antipáticas do dicionário é a palavra crítica. Ninguém gosta de ser criticado. Mas nem sempre criticar é falar mal de algo ou alguém. Pode ser analisar, sem julgar, um trabalho ou um comportamento qualquer. Compreender o uso da linguagem empregada em determinada situação e dissecá-la, mostrando os mecanismos de seu funcionamento.
Em arte também funciona assim. Nem sempre o crítico é aquele tirano que destrói o trabalho alheio. Deveria ser o contrário, aliás. O papel do crítico deveria ser o de ''co-autor'' do trabalho do artista, abrindo sua leitura para que outros olhares possam julgar, por si próprios, a pertinência de uma determinada obra ou processo de arte. Mas, se radicalizarmos essa visão, então poderemos entender que há outras possibilidades de se fazer crítica, que é a crítica como uma ação, ou melhor, a crítica como criação, também. E então inventamos uma nova categoria de artista: o artista crítico. Mas qual seria a função e a atuação de um artista crítico. Qual obra resultaria de seu trabalho?
O artista crítico é aquele que tem na teoria sua prática e na prática a continuidade de sua teoria. Que vê pistas no trabalho alheio para a construção de sua própria poética. Que entende o sentido da palavra autor, como ''augere'', derivado do latim, como acrescentar, adicionar: adicionar sobre a obra que outros fizeram crescer. Acrescentar valores a uma obra que é única e sempre a soma de todas as outras como parte de um processo histórico.
O artista crítico apropria-se da profusão de imagens e das informações processadas pela mídia como material para a construção de sua linguagem.
Diferente da arte pop, não se trata de ''estetizar'' a sociedade de consumo, mas em devolver as imagens à sociedade, re-significando-as, gerando conteúdos reflexivos, questionando compromissos tanto daquele que lê a obra quanto dos meios que o produzem, exigindo responsabilidades sociais.
Como já disse o teórico, escritor e professor Hal Foster, ''a mercadoria é a ideologia da burguesia'' e, mesmo a mais radical contestação ao capitalismo - ao sistema de exploração e lucro - torna-se ''fetiche'' e acaba se transformando em moda e propaganda ao próprio contexto ao qual se opõe. Das calças jeans rasgadas às músicas de protesto - aí incluído o Hip Hop - tocados em alto volume no carro de ''pitboys''.
A oposição é oportuna em nossa ''democracia de mercado''. Ela é, inclusive, estimulada, porque gera polêmica, cria notícias, vende como qualquer outro produto. E até a miséria se torna produto estético quando embalada na produção e na linguagem comercial do produto ''for export'' exótico.
E se não é a produção de mais mercadorias o que o artista deve ter em mente realizar, ou melhor, se sua produção parte de uma crítica ao próprio consumismo do qual seu trabalho não tem como escapar, então sua posição deve ser, no mínimo, de resistência e interferência nos circuitos de circulação material - incluindo-se o pensamento e as instituições que devem (deveriam?) fomentar a pesquisa crítica.
Sua preocupação já não é mais a de criar ''obras de gênio'', como se ele fosse uma espécie excêntrica ao resto da humanidade, mas em levantar questões que pareciam inexistentes antes de terem sido apontadas. Muitas vezes escondidas pelo medo ou pela indiferença.
O artista crítico não compactua com a tentativa de domesticação de seu trabalho, nem de sua imagem, visando benesses do poder. Não se presta ao decorativismo. Não aceita a exclusão como manutenção da miséria, para que sua obra satisfaça as exigências do mercado. E que seu papel - prático e teórico - é o de propor transformações, ainda que ela se dê parcialmente, localmente, mas sobretudo, sem perder sua potência.
O artista crítico, enfim, não é um historiador, não é um crítico, não é um político e nem é um teórico. Mas incorpora ao seu mundo e ao seu modo de produção questões tocantes à história, à política, à crítica e à teoria. Sem isso, sua arte não faria sentido também.

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