O nu sempre foi representado na arte. Como sinal de fertilidade, de virilidade, de castidade ou despudor. As primeiras Vênus conhecidas foram feitas ainda na pré-história, no período paleolítico, feitas em argila. Tinham os seios fartos e a barriga protuberante, sinal de fertilidade, em um tempo ainda mágico, que não se distinguiam as horas e tudo obedecia ao ciclo da natureza.
Na Grécia antiga o corpo humano era valorizado como forma de mostrar força, potência, virilidade. Principalmente o corpo masculino. O Deus Apolo era quem reunia tais virtudes e era representado pelos maiores escultores desta época clássica, que buscavam nas formas humanas o Belo Ideal. Quanto ao corpo feminino, a beleza de Vênus foi considerada a maior entre as Deusas, e, assim, a ela eram consagrados templos e oferendas.
Ainda na Roma antiga, Baco, deus do vinho e da orgia, correspondente ao deus Dionisos, da Grécia, recebia homenagens em festas feitas em seu nome, mais ou menos como o carnaval, hoje, no Brasil. O desejo dos corpos era celebrado. A lascívia sexual, ritualizada.
Mas o poder mudou de mãos, e na idade média, com a implantação do cristianismo, era a proibição da Igreja Católica quem dizia o que podia ou não. E o corpo e os desejos provocados por ele eram considerados como manifestação demoníaca a se extirpar. O paraíso exigia castidade. E em meio a pestes, violências, corrupção, fome e miséria, a fogueira ardia para quem se atrevesse a mostrar, sequer, partes do corpo humano. A não ser pintado ou esculpido, ardendo no inferno. Ao mesmo tempo, aprendemos com os cantos ao mesmo tempo sagrados e profanos da Ópera ''Carmina Burana'', do compositor alemão Carl Orff, ou com livros como ''O Nome da Rosa'' que virou até filme de Humberto Eco, mostrando a vida nos mosteiros, de que a repressão ao corpo e ao sexo gerou uma espécie de pervertidos e tarados, os quais, ainda hoje, infelizmente, sobrevivem não poucos em nosso meio. Ou, como escreveu o dramaturgo Nelson Rodrigues: ''todo casto é um pervertido''. Geralmente são os mais conservadores, os moralistas e preconceituosos, os de mente mais ignomínia.
Mas no Renascimento, com o advento do Humanismo o homem como centro do universo a situação novamente foi se alterando. Ainda que sob a tutela da Igreja e ao severo moralismo pregado (até hoje), pintar, esculpir ou desenhar corpos nus, sem que isso jogasse seu autor na fogueira da Inquisição, já era possível. Pelo menos corpos femininos. E de deusas gregas. Quem não conhece ''O Nascimento de Vênus'', do pintor Botticelli (1445-1510)? A deusa grega, nua, saindo de uma concha. Um outro, dos mais belos e paradoxais já pintados, é ''O Amor Sagrado e o Amor Profano'', pintado por volta de 1515, de Ticiano, porque a imagem mostra duas mulheres, uma nua e outra vestida. E, justamente, é a mulher que está nua, a deusa. Sua pureza é tanta, que a ela é permitida a nudez, sem que isso seja obsceno.
Depois, pelo menos até Ingres (1780-1867) a representação do nu, particularmente o feminino, na arte, atingiu um grau de sofisticação tão grande, que o artista incluiu uma vértebra a mais no desenho de um nu, de costas, para dar maior elegância e harmonia ao conjunto da composição.
Uma pintura, que funda o Modernismo, segundo Giulio Carlo Argan, de 1874, de Manet, altera toda a representação sobre o nu, até então. Já não era mais uma deusa representada no quadro ''Almoço na Relva'', mas uma jovem donzela parisiense, em meio a outras pessoas comuns, nos subúrbios da cidade, fazendo um piquenique. Chocou a sociedade conservadora da época, foi recusado no salão oficial de arte, mas ganhou o mundo. E a história da arte, depois do Impressionismo, nunca mais foi a mesma. E os artistas, tampouco. Agora a igreja já não tutelava mais o que se podia ou não, mas em compensação, já não fomentava mais as artes.
(O artigo continua na próxima semana).
Correção: o crédito da ilustração publicada na semana passada é de Rebecca Horn e a performance chama-se ''Finger Gloves'' e não ''Tatics'', de Dennis Oppenheim.

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