ALFABETO VISUAL - Novas organizações contemporâneas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de setembro de 2002
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2<br> ''O poder é o sexo dos velhos' 
O século 20 foi o século das guerras. Das devastações, das contaminações e das chacinas. Ao mesmo tempo em que a humanidade assistiu o avanço da ciência e da tecnologia, sua cultura e espiritualidade foram dominadas por toda a sorte de ideologias que fizeram uso de suas contribuições para se manter no poder.
Palavras como paz, amor, democracia, cidadania, liberdade, etc., foram usadas em discursos e retóricas hipócritas e eleitoreiras visando o consumidor padrão e acéfalo transformado em ser autômato e replicante a engraxar os mecanismos dos mais espúrios interesses. Nunca o ser humano foi tão corrompido em sua essência, vítima da propaganda enganosa das reengenharias econômicas, do pensamento técnico de enxugamento da máquina administrativa e dos certificados ISOs como garantia de qualidade.
Mas acontece que quando essas teorias foram aplicadas no 3º Mundo, vários seres - além de espécies de tomates, ovelhas e bovinos - sofreram modificação genética não específica e nasceram com defeito de fabricação, tais como muitos acadêmicos, intelectuais, artistas, filhos da burguesia e até gente do povo, para desespero dos eugenistas de plantão. Fazendo o caminho se descortinar não só ao Novo Século, mas ao Novo Milênio. E agora, cada vez mais, esses seres se reúnem todos em torno de um mesma bandeira, denominada de Força Jovem.
Sim, amigo leitor, nosso ''parque industrial'' é um celeiro de ''claras crocodilos'' e outros seres modificados geneticamente que absorveram o MAL em suas entranhas e reivindicam o direito sagrado de retornarem às suas origens primitivas e tribais - como faziam seus ancestrais - de ''atearem fogo nos museus'', andar pelado e ''comer carne humana'', embalados pelo som de ''Joe's Garage'' e imersos em leituras de videntes precursores como Antonin Artaud, Stewart Home, Guy Debord, manifestos Dadaístas e Fluxus em geral.
O próprio irracionalismo do progresso tecnológico levou esses seres a usar a internet como um canal sem fronteiras autorais, onde cada um pode colocar e colar seu pensamento no ar, ao mesmo tempo em que outra pessoa, em outro lugar do mundo, pode modificar, roubar, alterar, se apropriar e divulgar como queira do que está se produzindo naquele instante, sem passar pelo filtro crítico e aprovação de nenhuma instância oficial sobre a validade ou não dessas ações. E isso é só um dos milhares de exemplos de como - sob essa mesma égide são executadas tais operações de caráter incontornável e incontrolável. Fernandinho Beira-mar, digo, João Pequeno é o guru desse Novo Tempo.
Quem é que quer saber de museu para ver Van Gogh, que foi assassinado pela sociedade e que agora tem o preço de suas obras cotado em milhões de dólares? De que adianta querer substituir Siron Franco, Manabu Mabe, Cláudio Tozzi, Gilberto Salvador, Juarez Machado por Mira Schendell, Volpi, Regina Silveira, Waltérico Caldas das paredes dos museus, se tudo o que vivemos agora é puro fluxo? Isso mesmo, ''não temos tempo a perder!''.
Queremos e exigimos um pensamento contemporâneo como ação dentro da própria contemporaneidade! Não se pode suspender o presente para pensá-lo como algo morto e acabado. Querer congelar um cadáver que está vivo.
Em todo caso, a Força Jovem continuará em sua estratégia de fazer com que alguns artistas e intelectuais continuem de plantão como reserva técnica das instituições atuantes no circuito oficial, servindo de ''laranjas'' toda vez que se possa usar a força de seus nomes e seus produtos como justificativas de políticas culturais, ou em eventos promovidos como salões e certames artísticos de um modo geral, uma vez - salvo engano - não se tenha extinguido completamente o cânone da Arte Moderna, valendo ainda o objeto como mercadoria e fetiche em nossa sociedade de consumo. Ou seja, incluir para destruir. Afinal, é preciso separar o joio do trigo para saber quem vai comer o que. No nosso caso, quem é que vai comer quem.
Somos milhões gritando a uma só voz e, como se diz no Jornal Nacional: ''O Belo é caso de polícia!''. E não renunciaremos à nossa condição de formigas de piquenique!
P.S. - O espaço desta coluna de hoje foi cedido extraordinariamente às opiniões do filósofo espiritualista Hilário Mertz. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
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