‘‘Estava à toa na via/ o meu amor me chamou...’’
(Chico Buarque - A Banda)

  Sobre o ócio e o ensino - Na última segunda-feira, dia 26, ocorreu um evento no SESC Pompéia, em São Paulo, dentro da série ‘‘Diálogos Impertinentes’’, cujo tema foi ‘‘o ócio’’. E entre os assuntos debatidos, a questão da escola e do ensino era um dos que se destacavam. Segundo os debatedores, era necessário que as escolas preparassem o estudante para o ócio e o lazer a fim de que esses venham a exercer plenamente a cidadania. A escola, aliás, na antiga Grécia, era um Centro de Tempo Livre, isto é, não havia outro sentido e função senão o desenvolvimento da sabedoria. Hoje em dia, até as escolas públicas se rendem às leis do capitalismo. Na maioria dos casos, as pessoas se perguntam se estudar em tal faculdade ‘‘dá dinheiro’’, como se a função da escola fosse a de ingressar os indivíduos no mercado de trabalho e não a de gerar pesquisa e conhecimento.
  Fábulas e invenções - Falar sobre o ócio, para muita gente, é como invocar o demônio – basta lembrar o ditado: ‘‘cabeça parada é oficina do diabo’’ – uma vez que o alicerce de nossa sociedade acabou se tornando a virtude do trabalho, como se isso fosse um dom natural e não questionável, em detrimento ao prazer de desfrutar as horas da vida simplesmente no ‘‘dolce fare niente’’. Nem na fábula, a cigarra, que seria a ‘‘artista’’ dos insetos, foi poupada. E a moral da história é que ela deveria se tornar uma operária como as outras para garantir sua sobrevivência.
  Contexto social - Neste momento em que a produção é maior do que a possibilidade de consumo no planeta; de que o problema não é o do desenvolvimento tecnológico, mas o da concentração de rendas; e que o contexto social cria milhões de desocupados, gerando, entre outros problemas, a exacerbação da violência, falar sobre o ócio, a preguiça e o nada, pode parecer uma ironia, mas o fato é que esse assunto está na base de muitas doutrinas filosóficas, artísticas, religiosas e sociológicas, como o existencialismo, a arte conceitual, o budismo e até o socialismo. Ou seja, é preciso compreender o ócio como matéria de desenvolvimento humano. Como disse o poeta Mário Quintana: ‘‘se o homem não tivesse preguiça, não teria inventado a roda’’.
  Dia do Nada - O ócio tem tudo a ver com o ‘‘Dia do Nada’’, que ocorre sempre na primeira segunda-feira de maio, desde 2002. No dia 3 teremos uma nova edição desse evento, que, neste ano se tornará ‘‘El Dia Del Nada Del Mercosud, rumo ao Nothing Day’’, com a participação de artistas e instituições da Argentina e do Chile, além dos parceiros espalhados pelo Brasil. Quem quiser saber maiores detalhes, pode acessar a página www.diadonada.cjb.net . E também o blog www.theblog.com.br e digitar DIA_DO_NADA. Para participar não precisa ser artista, basta ‘‘fazer nada’’, já que o Nada a Ver do título desta coluna não quer dizer negar a visão, mas ampliá-la, a ponto de considerar, também, o Nada.

Rubens Pillegi Sá é crítico de arte e colaborador da Folha.

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