ALFABETO VISUAL - Mudança na retina, mudança na rotina
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de setembro de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Uma sessão terapêutica - ''As pessoas costumam cair sempre no mesmo erro porque executam sempre os mesmos movimentos'', dizia o terapeuta na sessão de práticas corporais para ''estressados em geral'', que o procuravam atrás de alívio para suas dores existenciais. Então era proposto que elas andassem pela sala da clínica e procurassem perceber o modo como andavam e, aos poucos, buscassem outros modos de se locomoverem, usando musculaturas, tensões e apoios diferentes do que estavam comumente acostumadas a usar.
Naquele ambiente, passo a passo, todos iam se descontraindo, perdendo o medo à exposição, à vergonha em ser olhado e, ao final da sessão - ao menos ali - pareciam ter ganhado alguma qualidade que lhes faltava: uma espécie de brilho no olhar.
Retina, rotina - Em nossa rotina diária, acabamos por automatizar nossas ações, em busca de uma maior funcionalidade para a prática do cotidiano. Normalmente fazemos isso de um modo que excluímos muitas outras coisas presentes à nossa volta, sem perceber a importância real que elas poderiam significar em nossa existência, como se isso fosse algo ''natural''. Representamos um papel inventado que não inclui mais olhar o nascer da lua, o pôr-do-sol, o cheiro inebriante das flores impregnando o ar da cidade, o canto dos pássaros, uma alegria não programada, a surpresa de um presente. Resgatar um pouco dessa ''magia'' é, também, tornar o cotidiano mais ''perfumado'', mais ''colorido'', mais ''vivo''. A mudança na rotina se faz perceber diretamente na retina, como se a letra O fosse uma abertura por onde a letra E se instalasse, tornando as duas palavras uma só. Talvez se possa dizer: um cotidiano onde as possibilidades de leitura - ver, sentir e ser - sejam ampliadas, amplificadas.
Método - O importante é começar a caminhada por um primeiro passo, como se diz no provérbio. Em direção ao diálogo como o mundo, tornando ''sagradas'' nossas práticas no cotidiano. Coisas aparentemente banais podem significar a manifestação de algo fabuloso, como o abrir e o fechar de uma torneira, por exemplo: a água fluindo, nos tocando o corpo, nos limpando...
Comece prestando atenção às coisas pelo menos por um segundo. Já é o suficiente, em um primeiro momento, para um longo programa de momentos cada vez mais amplos de descobertas de relações do mundo com nós mesmos.
Resultados práticos - Você não precisa ser um artista para experimentar essa ''ampliação das esferas da percepção'' (se é que assim pode ser chamado tal estado). Aliás, o campo fértil para isso acontecer é, justamente, onde menos se espera algo surpreendente acontecer. Talvez o encantado se revele no que sempre esteve com você e você ainda não tivesse visto, escutado, sentido, percebido. E a arte lhe toque. Ainda que, nesse instante, nem o nome ARTE faça diferença para esse brilho no olhar que você acabou de ganhar.
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