Quem de nós, mesmo o mais ocupado em dar respostas concretas e objetivas às vicissitudes da vida, de vez em quando não pára para pensar, por que motivos e o que estamos fazendo aqui, neste momento, no planeta. Mesmo que não cheguemos a lugar nenhum com essas indagações, só em elaborá-las, já nos colocamos como parte das preocupações que um fantasma chamado ''mundo moderno'' principalmente depois das revoluções sociais e industriais da segunda metade do século 19 faz levantar sobre nossas cabeças e consciências.
A chamada ''era moderna'', de fato, começa, segundo datação histórica, em 1453, com a queda de Constantinopla, as Grandes Navegações, Descoberta do Novo Mundo, o Humanismo, etc. E, segundo os historiadores, termina em 1789, com o advento da Revolução Francesa.
Mas o modernismo, enquanto fenômeno estético, surgiu no final do século 19 e tinha como pressupostos básicos muitas das questões que ainda hoje nos dizem respeito, embora, para alguns, elas possam parecer superadas naquilo que comumente se acostumou chamar ''pós-modernidade''.
Para muitos, no entanto, o modernismo não passa de um modismo ou um incômodo do qual é preciso se proteger com frases do tipo ''não compreendo'', ou, pior, ''não gosto'', como se gosto e conhecimento fossem antagônicos na questão do juízo estético, em um mundo nada maleável.
Uma reflexão dessa natureza pode nos levar ao sentimento de impotência para alterar os desígnios daquilo que nos cerca, se não entendermos os meios e os mecanismos que temos à disposição para poder enfrentar tamanho desafio. E mais, para alterar os rumos que parecem delineados em épocas tão turbulentas quanto a que vivemos.
Talvez não exista uma resposta definitiva para isso. E muito menos métodos para verificar se o que se apresenta o legado do modernismo seja bom ou ruim. Mas nesse caso, nada melhor que conhecer os postulados que definem o movimento ''modernista'', começando por um conceito da física, que é o da relatividade. Assim, podemos pensar que chegamos aonde chegamos simplesmente porque não havia outro modo, senão esse - brutal e violento, mas vital de efetuar nossa presença no mundo.
Ainda hoje o discurso do modernismo soa um tanto hermético para a maioria das pessoas. Embora aceitem passivamente termos que apenas especialistas são capazes de desvendar, como no caso da economia, que, de uma forma ou de outra, acabam refletindo diretamente no bolso de cada um.
Já se foi o tempo em que se torcia o nariz para um quadro modernista abstrato, ou se estranhava que algo parecido com um rabisco pudesse ser chamado arte. Consumir arte tornou-se uma espécie de moda. Mesmo que a finalidade de um quadro não passe de mera decoração na sala de tv.
Falar em ''autonomia do objeto de arte'', ''a coisa em si'', ''arte pela arte'', ''fim da representação'', ''abolição da ilusão da perspectiva renascentista'', em favor de algo que é pelo que é, como uma linha ser uma linha (''uma rosa é uma rosa é uma rosa'') é algo que foge da compreensão do homem médio, angustiado por não saber porque é obrigado a levar a vida que leva e incapaz de questionar um mundo onde tudo se tornou distante de sua compreensão imediata. É realmente dificil se desapegar de idéias maniqueistas: de um lado, o bem, de outro, o mal.
Muito do esforço da arte e do pensamento contemporaneo tem sido gasto para equacionar o que modernismo nos legou como imponderáveis. Um deles procura retirar a arte dos grotões que lhe foram impostos e celebrá-la junto à sociedade, novamente. Mas, para isso, deglutir o legado da arte conceitual, pós Duchamp enquanto a ''socieade de espetáculo'' lança seus mísseis no Iraque, em nome da paz e da democracia torna-se imperioso. Deixar a ''velha roupa colorida'' para trás, os velhos rótulos. E, até, o título romântico de ser chamado de artista, talvez. E enfiar o pé no lodo da vida. Ao invés de discutir poesia, tornar-se poético. ''Pensar é esculpir'', nos ensinou Beuys.
Talvez nosso pragmático e ocupado homem, que normalmente não se questiona sobre as vicissitudes da vida, simplesmente desempenhando seu papel social, também passe a ver as coisas com certa relatividade. E mesmo não fazendo a menor diferença a importância ou não da modernidade, ao encarar o mundo com outro olhar, as coisas já comecarão a mudar à sua volta.

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