ALFABETO VISUAL - Lugares apropriados para ação artística
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de abril de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Na edição do caderno ''Mais'', da Folha de São Paulo, de 6 de abril, em uma entrevista para um texto sobre ''coletivos de artistas'' e grupos surgidos nos últimos anos, o diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Fernando Cocchiarale diz que ''...os melhores artistas desses grupos têm por destino um lugar certo nas instituições que, agora, tanto criticam''. Mas o foco da questão sobre ''o lugar do artista'' não pode ser mais compreendido como um dentro e um fora que se anulam mutualmente. Nem pela ameaça profética, nem pela recusa simples de se ''deixar domesticar pelo sistema''.
O grupo de artistas 3Nós3, surgido em São Paulo, nos finais dos anos 70, fez, em uma de suas ações de arte, um trabalho intitulado ''X galerias'', pregando fitas adesivas, em forma de cruz, nas vitrines das galerias de arte e deixando um bilhete escrito que dizia: ''o que está dentro fica, o que está fora se expande''. Ou seja, como disse Lygia Clark, pelo menos uma década antes: ''onde o fora habita, senão dentro de mim?''. Portanto, não há mais o marginal, nem mesmo o fora em relação a um dentro que nomeia e qualifica o que pode ser arte ou outra coisa qualquer. Esperar se tornar gênio para ser aceito dentro de um museu de arte pode ser tão artístico como não fazê-lo, simplesmente.
Também não é o caso de negar por negar a idéia de autoria, propriedade e mercado, como sendo um produto do individualismo burguês e acreditar que, com isso o problema esteja resolvido. Obviamente isto não deixa de ser parte da pauta do debate contemporâneo da arte, mas o que se acrescenta aqui à essa idéia de contestação ou ''desmaterialização do objeto artístico'' é que, mesmo a linguagem, podendo deixar de existir, de fato, torna-se linguagem, em sua virtualidade.
Mas não se trata de criar um museu na internet com obras desmaterializadas recheando seu conteúdo (se bem que isso já deva até existir), mas de criar situações de incorporação onde a noção de dentro e de fora não seja mais do que uma percepção fabricada de algo prestes a se desfazer, como uma parede de gelo funcionando como uma divisória entre lugares, por exemplo. No trabalho ''4 dias 4 noites'', de Artur Barrio, realizado 1969, por exemplo, em que o artista caminha, sem parar, até o limite da fatiga absoluta, pelas ruas do Rio de Janeiro, há, inclusive, uma recusa pelo registro. Não foi filmado, ou fotografado e só existe como uma memória de algo acontecido.
Considere a ação de ler este texto um trabalho de arte. Isto mudaria alguma coisa em relação à coisa lida, caso isto (transformar a leitura em uma ação de arte) não fosse proposto? E por que a simples leitura de um texto poderia ser tratada como possibilidade de realização de um trabalho de arte? É simples, porque a idéia do fazer artístico, hoje, está além da idéia de registro e conservação do objeto artístico em museu, simplesmente. Ou, pelo menos do que é ainda chamado de museu.
Deixa-se de fazer a arte tradicional para, em seu lugar, colocar objetos de uso cotidiano como objetos de arte. Deixa-se de fazer arte, colocando no lugar deste objeto deslocado de sua função original uma definição de objeto (arte conceitual). Deixa-se de fazer arte colocando no lugar desta definição sobre objetos apenas algo que possa ser considerado ''um estado'' de arte. Tudo pode ser considerado arte, mas à medida que isto se torna um fato a ser considerado, torna-se também algo que não faz a mínima diferença sua nomeação.
O cerne desta questão sobre o artista rebelde que é cooptado, é a de que há uma mudança deliberada nos propósitos do fazer artístico, onde o acontecimento se dá não mais por aquilo que a instituição possa dizer se tal coisa (isto) é ou não é arte, mesmo porque a própria instituição não deixa de ser uma ''noção'', como a idéia do dentro e do fora em relação a uma parede de gelo.
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