ALFABETO VISUAL - Inventando moda e movimentos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de agosto de 2005
Rubens Pillegi Sá<br> Especial para a Folha 
Todo movimento cultural para ser considerado como tal, deve atingir os costumes e o comportamento social, modificando, assim, também as formas de arte conhecidas. É assim com a chamada cultura Hip Hop, que vai do grafite à música, passando pela moda. E foi assim, também, com o movimento tropicalista, punk, hippie, enfim, com todo movimento capaz de dar uma identidade a quem o pratica.
Foi de um desses movimentos, justamente do Dadaísmo do começo do século passado que surgiu a figura do alemão Hans Baader. Candidato a deputado não eleito e depois recrutado como presidente da Cristo Sociedade Anônima, que não vingou, ele foi uma dessas pessoas que experimentaram os limites de uma experiência de vida que poucos ousam enfrentar, recebendo até ''carteirinha de louco'' pela polícia, que lhe servia de salvo conduto para suas estripulias.
Assim era o Dadaísmo, aberto para este tipo de manifestação e insuportável para quem acha que a regra é o limite do aceitável. Mas, no rastro do Dadaísmo, outros movimentos vêm surgindo, locais - ainda que possam se espalhar internacionalmente - como, por exemplo, o Carlonismo, o Marcelhismo, o Augustosilvismo, o Agenorismo e o Rubismo, representado, principalmente,sob o signo NÓS, que quer dizer, Nova Ordem Sensorial.
Aqui, cabem as plágio-combinações de um Tom Zé, por exemplo, a ironia de um Belchior e até a negação de quem negou ser a negação para se tornar o nome da mídia, se chafurdando entre Tchans, Funks e Mensalões para ser vendido como mercadoria de quinta categoria em bailes comandados por traficantes e severinos.
Mas se alguns desses movimentos são bem conhecidos nossos, outros, como o Marcelhismo, o Carlonismo, o Austosilvismo, o Agenorismo e o Rubismo precisam ser explicados.
O Marcelhismo, por exemplo, não corrige. Faz do erro um estilo. Do defeito uma sacada. As possibilidades de duplas leituras, nesse movimento, criam sempre um suspeitado entendimento das coisas, jogando com os duplos sentidos das palavras. É na oralidade, mais do que no texto escrito, propriamente, que sua possibilidade de jogo - algo da ordem da semântica - se torna um divertimento popular.
É claro que isso existe Brasil afora, principalmente quando o jogo de palavras se refere às drogas e ao sexo, mas, no Marcelhismo, essas vias de mão dupla se dão também para o discurso político. Obviamente sem tirar do sexo ou da droga os duplos sentidos aos quais todos entendem sobre o que, exatamente, está se falando.
Marcelhista pode ser qualquer um na rua. Qualquer cara encostado no balcão de um bar, pedindo fiado, de olho comprido na filha do dono do botequim, assumidamente vagabundo, que sabe o resultado do futebol, que entende de política, mas sem deixar de ser, filosoficamente, niilista.
Já movimentos como o Carlonismo e Austosilvismo pregam que um movimento só pode ser válido quando ninguém mais suporta seguí-los, nem mesmo seus próprios criadores. Mandam tudo para os ares antes que se possa ter algum movimento com o seu nome fazendo discípulos pela cidade. Embora paradoxal, são movimentos assim que encontram, em sua negação, vários imitadores que se fazem passar pelos originais para parecerem originais, também.
Já o movimento Rubista, aposta no erro, na dissolução, e em tudo o que não é faz parte do que ele é. Aliás, são os erros que o tornam perfeito. Diante de uma ação que não deu certo, não se aflija mais, diga que isso faz parte do Rubismo e não há mais que se preocupar em justificar nada. Simplesmente aceite o diabo como parte da trama encenada para fazer com que tudo acabe em arte, mesmo não acreditando mais em arte ou seja lá em que for.
Faltou falar do Agenorismo? Passa lá no ''Chopão'' do calçadão de Londrina, uma hora dessas e senta para uma cerveja que você logo vai entender o que é e do que se trata esse movimento. Aliás, falando em cerveja, por que não uma agora para ''liberar o espírito''? Pois, como já disse o sábio colunista Macaco Simão sobre esse negócio de movimento: ''quem fica parado é poste!''


