ALFABETO VISUAL - Iluminações
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Como quem busca o interruptor de uma lâmpada para acender
na escuridão opaca da página, procurando seguir caminhos que levem às idéias
luminosas, palavras vão sendo tateadas, como quem procura algo para
apoiar-se, no desejo de encontrar um assunto para tornar-se texto, de
encontrar brechas para clarear o escuro fechado que está por dentro do
pensamento. E as palavras surgem, ao mesmo tempo em que se inscrevem nelas o
desejo de tornar-se luminosa.
Com um golpe ardiloso, o espelho inventa narciso se admirando no lago de sua
própria retina que reflete um homem à procura de luz: Diógenes, o cão, a
procura de um homem. Em cada um, luz e sombra definindo o contorno do que
somos.
Religião = Religare. Na prática budista, o Satori é o estado de iluminação.
Quando o praticante de Zazen (técnica de meditação) atinge a compreensão
absoluta da existência, ele se torna um com todos e tudo, liberta-se do ego
e os sofrimentos acabam, pois é descoberta a verdadeira essência de Buda.
Mas, nesse caso, além da disciplina do discípulo, é preciso ter fé.
Acreditar em algo que não se vê, não se mede, não se tateia, e - por
paradoxal que seja - não necessita de crença. Essa, uma das distinções do
Budismo com o Cristianismo.
Quase uma filosofia
Despertar para uma situação, sacar uma questão,
desvendar um problema ainda não é resolvê-lo, mas já é uma certeza que há um
interruptor ao nosso alcance capaz de acender uma luz. De que, com a
iluminação do ambiente, é possível fazer algo, nem que for para deixar a luz
apagada por mais um tempo, perceber o silêncio e apenas contemplar o vazio.
E, ainda assim, saber estar em algum lugar, posicionado diante de tudo que
está à volta, dentro e fora.
Em nossa sociedade, a maior angústia das pessoas é aceitar o vazio. Temos
pavor de ficar perdidos, ainda que a solidão possa ser uma grande
companheira. Por isso, inventamos as cartas de amor, mas também as guerras,
as metáforas e as representações. Diferente para cada época, mas sempre
procurando expressar nossos sentimentos, para que a história guarde dentro
dela a luz do nosso devir.
Antes arte do que tarde
Por isso a arte, para aprender que somos livres e
complexos, ao mesmo tempo. Corpo e espírito, matéria inflada de energia.
Como o fio de luz que entra agora pela esperança de saber que quem está por
vir, está a caminho. O interruptor fica esquecido na parede. A porta se
abre. É dia, é verão. Há luz.
[email protected]


