Uma das funções rituais da droga alucinógena é a de ''abrir as portas da percepção'' para os sentidos e, particularmente para o conhecimento. Ou melhor, para o auto-conhecimento, como forma de atingir o êxtase glorioso que o uso da droga traz. Usada ritualmente entre indígenas e negros trazidos da África ao continente sul-americano, em nossa sociedade ela é vista como ilegal e perigosa, sendo que o discurso que se faz sobre ela é o da sua periculosidade frente à comumente chamada realidade. Em nossa sociedade a droga alucinógena é caso de polícia.
Em se tratando de pensamento poético, podemos aqui traçar paralelos entre os sintomas da droga agindo sobre o organismo e sua importância em levar o usuário a estados de clarividência onde tudo passa a se tornar realidade em meio às mais delirantes alucinações. Assim como o conhecimento precisa se manifestar de maneira a tornar palpável uma idéia, fazendo com que situações passadas possam, novamente, ser experimentadas seja por qualquer tipo de registro ou documentação assim também o uso da droga pode nos levar a certos estados alterados da mente, nos retirando da fugacidade do instante para entrar em um outro espaço e tempo que está além das circunstâncias do momento. Uma viagem para fora do próprio corpo, por exemplo.
E um conhecimento capaz de tornar um instante novamente real é o da experiência poética, uma vez que, ao mergulhar nesse estado, é possível retornar a um clima de ''frescor da manhã'', que é uma sensação que foi construída para esse fim, capaz de refazer, toda vez que é invocada, novamente, à percepção de um momento. O conhecimento passa a ser, então, ''uma espécie de droga''. Um meio possibilitador de ''viagens''.
Mas esse momento é o momento da visão. É o momento da profecia. É o momento mágico que transforma em arte um mundo dado à percepção dos cinco sentidos. Aqui há espaços para os delírios, para as alucinações, para o sonho. Abrem-se portais para a passagem do espírito. E, dentre as drogas consumidas em rituais, podemos destacar aquela que é usada pelos médicos-feiticeiros das tribos dos índios do noroesto do Brasil e das regiões a leste dos Andes, o yajé, caapi, também conhecido como Ayahuasca, Daime, de seita homônima, ou telepanina, pelo poder que a substância tem em fornecer visões ao usuário deste cipó.
Ao ''aprender'' a palavra, ao ''acorrentar'' a imagem, não estaria também o artista criando uma maneira de ''oferecer'' visões sobre o mundo, já inscritas em metáforas e símbolos que se afloram na medida em que são percebidos? Ao registrar, documentar, ao tornar possível voltar àquela região onde acontecimentos e sensações foram provados, não seria a letra, a palavra, a escrita, a imagem, enfim, a ''droga'' que transportaria o leitor, o receptor, o co-autor que recria o que está inscrito a um mundo extraordinário, podemos dizer aqui, de sonho, de vôo?
Talvez essa tivesse sido a motivação, ou pelo menos parte dela, que levou uma geração de escritores dos Estados Unidos, nos anos 50, a chamada ''beat generation'', a usar todo tipo de droga. Que esperneiem os fundamentalistas, mas grande parte da arte produzida, pelo menos desde o Romantismo, está impregnada com o cheiro de maconha, haxixe, absinto, heroína, álcool e toda a sorte de estimulantes e alucinógenos que o ser humano possa experimentar. Até chegar à overdose. Até a passagem, definitiva, para o outro lado, o insondável.
De Modigliani a Pollock, das ''flores do mal'' ao movimento psicodélico dos anos 60, o ''flower power'', o ''paz e amor'', não há quem não tenha se iludido (e ou se encontrado) na droga. Voar sempre foi o sonho de Ícaro de todo humano. Transcender a carne, ultrapassar os limites da matéria, encontrar-se em um plano superior de visões, ou simplesmente ''fugir'' à realidade são algumas das motivações que levam ao seu uso.
E a gênese da criação tem o poder de usar desse ''sonho'' para voar nas asas da imaginação. E é isso que constrói as realidades. Escrita a partir da pena dos poetas. Da visão dos artistas. Daquilo que se torna poética, ou, mais precisamente, daquilo que pode ser instrumentalizado pela linguagem para se transformar em algo que ultrapasse a mera rotina do cotidiano.
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