Flávio de Carvalho poderia ser um homem da Renascença, dado seus múltiplos interesses na ciência e na arte. Figura atuante nos meios artísticos de sua época, um de seus trabalhos mais conhecidos - a Experiência nº2, de 1931 - foi uma provocação coletiva em que, andando de chapéu contra a multidão que seguia a procissão de Corpus Christi, tinha o intuito de pesquisar a psicologia de massas.
  Com o livro ‘‘Os ossos do mundo’’, de 1936 - realizado depois de uma viagem à Europa - elabora, segundo ele próprio, uma nova teoria da história.
Gênio inquieto e multiforme, escreveu ainda ‘‘A origem animal de Deus’’, em 1973, e também a peça ‘‘O bailado do Deus morto’’, cuja apresentação foi interrompida, pela polícia, no Teatro da Experiência, em São Paulo, em 1933. Aliás, também sua exposição de desenhos e pinturas, de 1934, foi interrompida pela polícia, que apreendeu 5 de seus quadros, considerados afrontosos ao pudor público, por se tratarem de imagens de nus femininos.
  Participou de diversas expedições pelo interior das florestas brasileiras, sendo que, em uma delas, em 1958, tinha o objetivo de encontrar uma tribo de indígenas loiros, nos confins do Amazonas. Seu projeto, que acabou, literalmente naufragando entre as margens do rio Demimi, era, além da pesquisa etnográfica, o de fazer um filme de ficção com uma ‘‘Deusa loura’’: uma atriz contratada para viver a personagem. Conseguiu trazer apenas alguns rolos do filme, fotos, artesanato indígena e uma infecção intestinal que quase o matou (Sangirardi Jr., in ‘‘Flávio de Carvalho, o revolucionário romântico’’, 1985).
  Seu trabalho como arquiteto também deve ser levado em consideração, principalmente pelo projeto de sua casa, em seu sítio, na cidade de Valinhos, SP, onde se reunia com outros artistas modernistas. Além das casas da alameda Lorena, em São Paulo, que resistem até hoje, como um marco da arquitetura moderna no país.
  E mais, não só escreveu sobre moda, como foi estilista, criando o famoso ‘‘Traje Tropical’’, em 1957, chocando a população da cidade de São Paulo, ao desfilar seu modelo pela avenida Augusta. Tratava-se de um saiote que, segundo ele, servia para refrescar e liberar o homem da cidade do terno preto em vigor, que, segundo ele, é uma herança imposta pela monarquia à burguesia.
  Como pintor e desenhista, expôs em várias ocasiões na Bienal de Arte de São Paulo, entre elas, a primeira, de 1951. E a segunda, de 1953. Além disso, expôs na XXV Bienal de Veneza, de 1950 e em vários museus e galerias do mundo inteiro. Seus retratos foram considerados, à época, como capazes de revelar o mais íntimo de seus retratados, como no relato do escritor Mário de Andrade que, comparando seu retrato feito por Lasar Segall e Flávio de Carvalho, diz:
‘‘Quando olho para o meu retrato feito pelo Segall eu me sinto bem. É o meu eu convencional, o decente, o que se apresenta em público. Quando defronto o meu retrato feito pelo Flávio, sinto-me assustado, pois vejo nele o lado tenebroso de minha pessoa, o lado que escondo dos outros.’’ (Diário de São Paulo, 21-10-1941)
  Sobre retratos, aliás, podemos dizer que o ápice atingido pelo artista foi na Série Trágica, em desenhos a carvão, de ‘‘Minha mãe morrendo’’, de 1947. Neles, o artista, em contornos rápidos, busca captar os últimos instantes de vida de sua mãe, como se a linha da vida e a linha do desenho se juntassem, antes do suspiro final de sua figura retratada.
Esse foi Flávio de Carvalho: provocador, inquieto, precursor, inventor, humanista.

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