Até a idade média, o conceito da boa arte era a cópia fiel do estilo deixado pelos mestres. A impessoalidade era o cânone imposto para que a obra fosse considerada com algum valor. A partir do Renascimento a situação se modifica e os nomes, estilos e escolas da época fazem questão de deixar suas marcas gravadas como um produto único, como mercadoria diferenciada para a História. O artista passa a ser reconhecido pelo talento e criatividade. O desenvolvimento artístico, nesta época, se dá por continuidade, sucessão, por caminhos apontados pelas gerações anteriores.
O modernismo transforma todas as influências numa salada de estilos como o dadaísmo, surrealismo, expressionismo, cubismo e tantos outros ‘‘ismos’’ que geralmente buscam negar as influências passadas, a história da arte e a própria História.
Hoje em dia, o rastreamento das pistas geralmente é dificultado, uma vez que todo o processo se sobrepõe e as conexões que cada um faz podem ser as mais desconcertantes, em links os mais diversos. Vivemos a era da hipermídia, da interdisciplinaridade. Sabemos que mesmo a idéia mais original não está livre da filiação, ao contrário, ela depende das influências, do conhecimento, da cultura.
Um exemplo disso é a comparação que se pode fazer entre o trabalho de Regina Silveira e Vik Muniz. Regina é uma artista que construiu sua carreira em São Paulo a partir dos anos 70, trabalhando com distorções, alterando o sentido da representação da imagem e interferindo sobre imagens fotográficas de ícones e objetos. Sua característica mais marcante é a apropriação de imagens já codificadas pelo senso comum e sua posterior subversão. Muniz, por sua vez, é outro artista cujo trabalho se revelou a partir dos anos 90. Sua característica é o uso da imagem como comentário da própria representação fotográfica enquanto discurso ideológico. São fotos de pinturas feitas de chocolate, açúcar, lixo ou espaguete, por exemplo.
Tanto Regina Silveira quanto Vik Muniz se reportam às heranças do passado com inteligência, ironia e perspicácia pois conseguem ao mesmo tempo ser reverentes e irreverentes às influências que já ficaram para a história.