Pássaros em revoada sobre a cabeça de Eríka. Fim da tarde, frio, e a nudez parcial da moça cobria os últimos instantes do evento programado para o dia. Tinha até um moço da TV comandando uma espécie de show para seu programa. Sabia-se o nome do gesto: chama-se subversão, o cordão da ilusão se corrompia. Recomendou, o moço, registrar o dia do xxxx. E depois do xxxx veio o ócio, vadiações e radiações. Perguntas girando em torno do vazio. Sumir do mapa depois da data era a meta, mas não dava, muitas eram as informações para serem processadas. A cabeça não pára.
Para quem ficou a tarde toda de jejum como realização de uma proposta, só o vazio poderia se tornar um grande companheiro de silêncio. Até porque tem gente passando fome.
Todas as fichas jogadas no dia do xxxx. Refletindo sobre o ócio, a preguiça, a vadiagem, o recusar-se a fazer, fazendo. As redes, as conexões, as relações, a troca de informações, criar territórios e situações inusitadas, como um taxista fazendo uma rede de pescaria enquanto aguardava cliente. Uma prostituta feliz em informar às outras sobre o tal ''protesto''. Mendigos querendo almoçar mexericas. E era só para passar, ''matar'' um tempo, como as varas de pescar sem anzol em uma fonte vazia, que antes tinha peixe, em uma praça no centro de Londrina, entre dois museus, que antes tinha vida.
Folgado, o cara dizia, enquanto passava pelo participante na cama, de pijamas e pantufas nos pés. Arte, meu irmão? Se ela perdeu a função dentro da sociedade que transforma o trabalho em rotina mecânica. Estamos aí para incluir tudo, inclusive o que não é arte. Para não se chamar mais xxxx de arte, se pode ser chamado de protesto, comemoração ou idéias que saem da cabeça para fazer reflexão. Então a poesia do dia-a-dia se transforma em filosofia, na medida em que falamos de sentidos de existência. Ou física: energia gasta é trabalho. Ou sociologia, pelo direito ao ócio. Ou antropologia. Seria o homem condenado ao trabalho? Justo o trabalho, canonizado como ''dádiva''?
O moço falou, você tem um produto que vende. Mas era tudo de graça. E tudo a ver. Uma rede de dormir doada para o artesão local emprestar para quem quiser descansar à sombra de uma árvore, durante o ano todo, transformada em equipamento urbano de lazer. O que podia ser chamado de arte agora não pode mais ser computado como arte, até porque despontencializa o ato criativo. Como chamar um equipamento urbano de ''escultura para dormir''. Até porque outras pessoas participam sem ter que dar nome a xxxx daquilo. Os próprios jornalistas refletindo sobre. Uma moça tomando banho de mar na praia do Arpoador, devia estar pagando as contas do mês. Tudo ao longe, mas distâncias não são problema quando se atua em redes de pesca, de dormir, de informações, de paixões. Mas não fazer xxxx, neste caso, é diferente de fazer xxxx. E o que era apenas uma aderência cômica a um evento, risível por fazer apologia à preguiça, se transforma em uma chamada para uma transformação radical de posicionamento: éticos e estéticos. Teve gente que foi lá para fazer xxxx e fez. Teve que não foi lá é fez. Quem não sabia e fez, fez. Quem sabia e não fez, não fez.
Diversas áreas do conhecimento entrelaçadas em rede: Deus é absoluto. A arte é bela. A ciência explica. A filosofia, reflete. E tudo sendo passível de inversão. Como encher um buraco de furos.
Entre a crueza do cotidiano e a poética da existência, um vendedor ambulante de redes de descanso atravessa a praça vendendo a possibilidade de lazer, quem sabe um dia? A preguiça embalada para um desejo que se fez matéria. Complicado? Talvez para quem perdeu a encanto de sonhar.
Um pequeno show para roubar alguns instantes na TV, quanto vale o tempo no noticiário? Uma piscina vazia cheia de gente. Um conta-gotas enchendo a fonte vazia. Um CD sem músicas. Um cálice vazio, uma moldura sem tela. xxxx a fazer senão romper a rotina maçante, com qualquer coisa que possa tornar a vida mais prazerosa e criativa.
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