Ato 1: um método Confiante em minha memória e na capacidade de fazer cognição, principalmente no campo da arte, gosto de discutir o trabalho de artistas, alinhando, muitas vezes, coisas aparentemente desconexas, mas que, aos poucos, tornam-se próximas e, até, mostram-se frutos das mesmas circunstâncias. Essa, aliás, tem sido uma meta nos textos que escrevo para o
jornal. Para isso, procuro ler, visitar exposições e conhecer o que posso sobre arte, afim de que o trabalho nesse espaço não se torne enfadonho, nem
repetitivo. E que o leitor possa desfrutar, também, do frescor de um
aprendizado que se faz em público, a cada semana.

Ato 2: clareza e concisão É dever jornalístico checar as informações antes de publicá-las, porque a responsabilidade requer provas dos fatos apresentados. Todo texto, em maior ou menor grau, afeta a credibilidade de quem o veicula. E uma vez publicado, ele está sujeito a mil olhares diferentes, que podem interpretar mal o que está escrito, ou duvidar, ou mesmo discordar de uma informação qualquer. Daí um pressuposto básico: clareza de idéias para atingir o ponto aonde se quer chegar, com um texto. ''Dar a cara à tapa'' requer muita coragem, qualquer deslize pode trazer consequências indesejáveis.

Ato 3: Freud explica Todo mundo sabe que a memória falha. E, ao suprimir um dado de algum lugar que armazena informações em nosso cérebro, nossa capacidade de cognição certamente irá falhar. E nossa atitude tornar-se equivocada, ''trocando alhos por bugalhos''. Apesar de indesejado, isso acontece com quase todo mundo. O nome disso, se não me engano, é ''ato falho''. Considerado um ''desvio'', ele é estudado na ciência do comportamento, na psicologia, na psiquiatria, por neurologistas e por quem tem no cérebro e na inteligência seu material de trabalho. Mas esse é um caso para o Dr. Freud e nosso assunto é outro. Eu me explico!

Ato 4: um não é o outro De passagem por São Paulo, fui à galeria do Centro Universitário da USP, no Espaço Cultural MariAntonia, perto da rua Consolação,visitar uma exposição coletiva, em cartaz, em que um dos expositores tem o mesmo nome meu, Rubens, mas o sobrenome de outro artista, Espírito Santo. Esse Rubens Espírito Santo eu não conhecia. Eu conhecia o Iran. Do Espírito Santo. Mas achei que um era o outro. E me espantei com sua instalação artística em uma das salas, que parecia a transposição do atelier do artista para a galeria. Ou, se quiser, pode-se pensar, também, que é a exposição de uma teoria de arte, que define o artista, o teórico e o professor como uma só pessoa. Assim, o que se vê é uma exposição de objetos pessoais, vídeos com entrevistas, um quadro negro com texto, bugigangas, livros, anotações, recortes de revistas e jornais, com algumas anotações que o artista cola em cadernos/diários. Entre esses recortes colados, um e-mail do escritor, crítico e curador Rodrigo Naves.

Ato 5: artista conceitual O que está exposto é o avesso do que vem realizando, ao longo dos anos, o artista Iran do Espírito Santo, com uma carreira consolidada. O trabalho de Iran é conciso, enxuto até a medula, sintético, pode-se dizer. De certa forma, até ''minimal''. Melhor, conceitual. Trabalha com materiais como granito, alumínio e quase sempre manipulados industrialmente. Não sei por que achei que o artista tivesse resolvido, de uma hora para outra, ''chutar o balde'', expondo, entre outras coisas, um texto ''revelador'' sobre como é o jogo para controlar o circuito artístico, no Brasil. E o tratamento que os críticos dispensam aos artistas: como se estes fossem sobrinhos deles, na base de conselhos e recomendações.

Ato 6: entre a indignação e a vergonha Ao ler o e-mail enviado pelo crítico, logo me cobri de indignação, pois estava escrito que não era para Rubens, o artista, fazer nenhum ''despacho no museu'' e tomar cuidado com o que ia expor. Isso me pareceu um cerceamento. Um artista da altura do Espírito Santo que eu conhecia não podia, mesmo, se submeter, sob nenhuma hipótese, a esse tipo de ''paternalismo''. E, antes que meu cérebro acusasse o ato falho, escrevi no caderno de presenças da exposição o que achava da instalação do artista baseado em um erro de cognição, ao confundir um artista com outro e de sua extrema coragem, ao propor um ''descarrego'' de arte, contra quem quer que fosse. E assinei embaixo: Rubens. O mesmo nome do meu xará.
Não era nada disso. Só dei por mim quando já era tarde demais para retornar à exposição e riscar o que tinha injustamente escrito, confundindo uma inocente e carinhosa atenção de um amigo com um conselho tendencioso de crítico. Fica aí minha desculpa!

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